A Electricidade de Moçambique (EDM) iniciou oficialmente o ciclo de comemorações dos seus 50 anos, que serão assinalados em 2027, numa altura em que a empresa pública enfrenta o desafio de transformar quase cinco décadas de expansão da rede eléctrica numa nova etapa marcada por maior qualidade do serviço, eficiência operacional, resiliência climática e sustentabilidade financeira.
O lançamento das comemorações aconteceu na quinta-feira, 27 de Agosto, em Maputo, durante um workshop que reuniu actuais e antigos dirigentes da empresa, representantes do Governo, académicos e outros intervenientes do sector energético. O encontro serviu não apenas para revisitar a trajectória da EDM desde a sua criação, em 1977, mas também para discutir os desafios que deverão orientar a empresa rumo ao seu primeiro meio século de existência.
Para o Presidente do Conselho de Administração da EDM, Joaquim Henrique Ou-Chim, a chegada aos 50 anos deve ser entendida como o início de uma nova etapa e não como o encerramento de um ciclo.
“Completar 50 anos não pode ser visto como um ponto de chegada, pelo contrário, deve ser sempre um novo ponto de partida para aprimorar nosso desempenho, fortalecer a confiança e consolidar os resultados alcançados até agora.”
A declaração traduz uma mudança de enfoque: depois de décadas concentrada na expansão da cobertura territorial, a EDM terá de responder a uma procura crescente por um serviço eléctrico mais fiável, eficiente e capaz de acompanhar as necessidades de industrialização e desenvolvimento económico do País.
Mais 12,9 milhões de pessoas com acesso à electricidade
Os números apresentados durante as celebrações mostram a dimensão da transformação ocorrida nos últimos anos. Cerca de 22,7 milhões de moçambicanos, equivalentes a 66,9% da população, têm actualmente acesso à electricidade, contra aproximadamente 9,8 milhões em 2019. Em seis anos, o número de beneficiários aumentou, assim, em cerca de 12,9 milhões.
A expansão permitiu igualmente electrificar as 11 capitais provinciais e as 154 sedes distritais. Dos postos administrativos existentes no País, 361 já dispõem de energia eléctrica, permanecendo 58 por electrificar.
O progresso aproxima Moçambique da meta de alcançar o acesso universal à electricidade até 2030. Contudo, os números também evidenciam a dimensão do desafio: cerca de um terço da população continua sem acesso ao serviço.
Para a EDM, a próxima fase terá de combinar a expansão da rede com soluções tecnológicas e financeiras que permitam chegar às zonas mais remotas, onde a baixa densidade populacional e as grandes distâncias tornam a electrificação convencional mais onerosa.
Da expansão da rede à qualidade do serviço
O crescimento da cobertura altera também as expectativas dos consumidores. À medida que mais famílias, empresas e instituições passam a estar ligadas à rede, aumenta a pressão sobre a EDM para garantir continuidade, estabilidade e qualidade no fornecimento.
O PCA da empresa apontou a tecnologia e a digitalização como instrumentos importantes para melhorar a resposta aos consumidores.
“Precisamos de reduzir, por exemplo, o tempo médio de resposta em caso de avarias ou em caso de uma solicitação do cliente. Esse é o nosso desafio e contamos nós que apostando na tecnologia poderemos resolver esta questão.”
A aposta na digitalização surge num momento em que a EDM procura melhorar a eficiência das suas operações e reduzir o tempo de resposta às avarias e solicitações dos clientes.
Este desafio ganha particular relevância para o sector empresarial. Para as empresas, sobretudo indústria, agricultura, mineração, comércio e serviços, a questão já não é apenas ter acesso à electricidade, mas dispor de energia com qualidade e previsibilidade suficientes para sustentar operações contínuas.
Alterações climáticas pressionam infra-estruturas
Um dos principais temas colocados no lançamento dos 50 anos foi a crescente exposição das infra-estruturas eléctricas aos eventos climáticos extremos.
Segundo dados apresentados no encontro, mais de 46 milhões de dólares foram gastos nos últimos oito anos na reposição de infra-estruturas energéticas destruídas por ciclones. Só durante a última época chuvosa, entre Outubro e Abril, a EDM registou prejuízos de cerca de dois milhões de euros e estimou em 8,1 milhões de euros as necessidades para repor as infra-estruturas afectadas.
Perante este cenário, o Governo desafiou a EDM a reforçar a resiliência das suas infra-estruturas e a incorporar os riscos climáticos no planeamento do sector.
O secretário permanente do Ministério dos Recursos Minerais e Energia, António Manda, defendeu igualmente maior modernização, eficiência e orientação para resultados, acompanhadas por elevados padrões de ética, transparência, boa governação e prestação de contas.
A questão climática deixa, assim, de ser apenas ambiental para assumir uma dimensão económica. Cada ciclone ou inundação que destrói linhas, postes ou transformadores representa custos de reconstrução, interrupções no fornecimento e perdas para empresas e consumidores.
Nova unidade para responder a desastres
Como parte da resposta a este novo contexto, a EDM anunciou a criação de uma Unidade de Resposta Rápida a Desastres Naturais, preparada ao longo do ano para actuar perante fenómenos extremos.
“O que a empresa fez foi criar dentro da empresa uma unidade que possa responder a estas situações”, explicou Joaquim Ou-Chim.
A medida pretende melhorar a capacidade de intervenção da empresa durante a época chuvosa e reduzir o tempo necessário para restabelecer o fornecimento de energia após a destruição de infra-estruturas.
Roubo e vandalização continuam a pesar
A expansão da rede ocorre, contudo, num ambiente marcado por perdas associadas ao roubo de energia e à vandalização de infra-estruturas.
A EDM reconhece estes fenómenos como um dos principais obstáculos à melhoria da qualidade do serviço e à expansão da cobertura. A empresa estima perdas anuais próximas de 100 milhões de dólares devido à vandalização de infra-estruturas e ao roubo de energia.
Durante o lançamento do ciclo dos 50 anos, Joaquim Ou-Chim reforçou a necessidade de combater estas práticas para garantir que os investimentos realizados na expansão da rede produzam o impacto esperado.
“O que nós precisamos é continuar a mobilizar recursos e também para que este processo de electrificação tenha sucesso, precisamos de combater as perdas.”
A redução das perdas representa, por isso, uma questão estratégica para a sustentabilidade da empresa. Menos energia perdida ou não facturada significa maior capacidade para financiar manutenção, novas ligações e modernização da rede.
O desafio de electrificar e, simultaneamente, desenvolver a economia
A meta de acesso universal até 2030 coloca a EDM perante uma equação complexa: expandir o serviço para áreas ainda não electrificadas, garantir qualidade aos consumidores existentes e, ao mesmo tempo, responder à crescente procura do sector produtivo.
O próprio MIREME defende que o potencial energético de Moçambique deve ser convertido em electricidade disponível, competitiva e sustentável, capaz de acompanhar as prioridades nacionais de desenvolvimento.
É neste ponto que a próxima década da EDM poderá assumir uma importância particular para o ambiente de negócios.
A expansão da electricidade pode funcionar como catalisador da industrialização, permitindo a instalação de unidades de processamento agrícola, sistemas de irrigação, câmaras frigoríficas, pequenas indústrias, centros logísticos e outras actividades produtivas fora dos grandes centros urbanos.
Por isso, levar energia às comunidades deverá ser acompanhado pela criação de condições para que essa energia seja utilizada na produção e geração de rendimento.
50 anos como ponto de partida
A entrada da EDM no ciclo do cinquentenário ocorre, assim, num momento de transição. A empresa chega aos 50 anos com uma rede significativamente maior e milhões de novos consumidores, mas também com uma agenda mais exigente.
A electrificação universal continua a ser uma prioridade. Contudo, o sucesso da próxima fase será medido não apenas pelo número de novas ligações, mas também pela capacidade de garantir energia fiável, acessível, competitiva e resiliente.
O desafio será transformar a expansão quantitativa dos últimos anos numa melhoria qualitativa capaz de responder às necessidades de uma economia que procura industrializar-se, atrair investimento e aumentar a produção nacional.
Ao lançar as comemorações dos 50 anos, a EDM inicia, por isso, mais do que uma celebração institucional. Abre um debate sobre o papel que deverá desempenhar na próxima fase de desenvolvimento de Moçambique — uma fase em que energia, tecnologia, indústria, inclusão e sustentabilidade estarão cada vez mais interligadas.












