Expedição do navio Dr. Fridtjof Nansen identifica zonas de elevada biomassa, áreas de conservação e concentração de baleias
Uma expedição científica internacional está a ampliar o conhecimento sobre os recursos pesqueiros e a biodiversidade marinha de Moçambique, numa missão que poderá contribuir para decisões mais precisas sobre a gestão, conservação e exploração sustentável dos recursos do mar.
A investigação está a ser realizada a bordo do navio norueguês Dr. Fridtjof Nansen, no âmbito do Programa EAF-Nansen, uma iniciativa da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), em parceria com a Noruega e instituições nacionais de investigação. A missão reúne investigadores moçambicanos e estrangeiros de diferentes áreas científicas.
O balanço preliminar da primeira etapa foi apresentado a 19 de Agosto, no Porto de Maputo, tendo revelado diferenças importantes entre as zonas estudadas ao longo da costa. Entre os resultados que mais chamaram a atenção dos investigadores está a identificação do Parque Nacional de Maputo como uma área de elevada importância para a conservação da biodiversidade marinha.
Segundo os dados preliminares, foi nesta região que se registou o maior número de espécies ameaçadas de extinção, com particular destaque para os tubarões. O resultado reforça a importância das áreas marinhas protegidas na preservação de espécies e ecossistemas vulneráveis.
Em sentido diferente, a região da Boa Paz apresentou a maior biomassa entre as áreas analisadas. Os investigadores consideram que este indicador revela um potencial pesqueiro significativo, com condições favoráveis para actividades de pesca à linha e para a ocorrência de pequenos pelágicos.
A informação poderá ser particularmente relevante para o ordenamento da actividade pesqueira, uma vez que permite identificar áreas com maior concentração de recursos e, consequentemente, apoiar decisões sobre zonas, períodos e modalidades de pesca.
Já em Inharrime, a expedição identificou uma área de agregação de baleias. A descoberta poderá justificar estudos adicionais e, eventualmente, a criação de mecanismos específicos de protecção ambiental naquela zona.
Mais do que contar peixe
A missão não está limitada à estimativa dos recursos haliêuticos. Os investigadores estão também a estudar o estado dos ecossistemas e das condições ambientais do oceano, incluindo indicadores como temperatura, pH, poluição e acidificação dos oceanos, além dos efeitos das alterações climáticas.
A líder do cruzeiro por Moçambique, Stela Fernando, explicou que os dados deverão contribuir para melhorar a gestão dos recursos pesqueiros, apoiar o ordenamento e o zoneamento da actividade e permitir uma identificação mais precisa dos principais recursos existentes.
“Contar com este cruzeiro de pesquisa dá-nos acesso a mais áreas dentro da Zona Económica Exclusiva, incluindo as profundidades a que normalmente não temos acesso quando fazemos o nosso trabalho rotineiro de monitoria”, afirmou a investigadora.
A questão da profundidade é particularmente importante para um país com uma extensa Zona Económica Exclusiva (ZEE), onde a monitoria regular não consegue abranger todas as áreas e habitats existentes. A expedição permite, assim, recolher informação que poderá complementar as bases de dados nacionais utilizadas na gestão das pescarias.
O líder do cruzeiro pela Noruega, Bjørn Erik, revelou igualmente que, durante a primeira etapa, foram encontradas espécies que ainda não foram identificadas. A análise destas amostras poderá acrescentar novos elementos ao conhecimento científico sobre a biodiversidade marinha moçambicana.
A equipa pretende ainda realizar estimativas de biomassa para as regiões Sul, Centro e Norte do país, criando uma visão mais abrangente da distribuição dos recursos marinhos.
Conhecimento para uma economia azul sustentável
Para Moçambique, a importância da expedição ultrapassa a investigação científica. A pesca constitui uma actividade relevante para a segurança alimentar, geração de rendimento e emprego, sobretudo nas comunidades costeiras.
Um estudo publicado na revista PLOS Climate estima que o sector da pesca artesanal marinha envolva cerca de 400 mil pessoas, incluindo pescadores, processadores, comerciantes, construtores de embarcações, fabricantes de redes e fornecedores de equipamentos. O mesmo estudo destaca a contribuição da pesca artesanal para a segurança alimentar e para a economia nacional.
Neste contexto, conhecer com maior rigor a dimensão e a distribuição dos recursos disponíveis é fundamental para evitar a pressão excessiva sobre os stocks e melhorar a sustentabilidade das pescarias.
A investigação ganha ainda maior relevância perante os efeitos das alterações climáticas sobre os ecossistemas marinhos. A temperatura da água, a acidificação dos oceanos e outras alterações ambientais podem modificar a distribuição e abundância das espécies, afectando tanto a biodiversidade como as comunidades que dependem da pesca.
A FAO considera o Programa EAF-Nansen uma plataforma de cooperação científica e de reforço de capacidades entre países parceiros. Ao longo dos anos, o programa tem permitido formar investigadores e apoiar países na recolha de dados necessários para uma gestão das pescarias baseada numa abordagem ecossistémica.
Segunda fase já está em curso
A expedição foi dividida em duas etapas. A primeira decorreu de 3 a 18 de Agosto, enquanto a segunda começou a 21 de Agosto e deverá prolongar-se até 8 de Setembro de 2026, abrangendo diferentes regiões da costa moçambicana.
Antes do início da missão, o Instituto Nacional do Mar (INAMAR) inspeccionou o Dr. Fridtjof Nansen e emitiu a licença necessária para a realização da investigação científica. A operação conta também com a presença de agentes de fiscalização marítima do INAMAR a bordo, para acompanhar as actividades e assegurar o cumprimento da legislação nacional.
A presença do navio em águas moçambicanas representa, assim, mais do que uma operação de recolha de amostras. Os resultados poderão constituir uma ferramenta para o país conhecer melhor o seu património marinho, identificar áreas prioritárias de conservação e orientar o aproveitamento económico dos recursos pesqueiros.
Para um país cuja costa se estende por milhares de quilómetros e cuja economia costeira depende em grande medida dos recursos marinhos, transformar dados científicos em políticas públicas será o passo seguinte. O verdadeiro valor da expedição estará, por isso, na capacidade de converter o conhecimento produzido a bordo do Dr. Fridtjof Nansen em melhores decisões para a pesca, conservação dos oceanos e desenvolvimento da economia azul.











