Investir na agricultura com resiliência

Visão de longo prazo, resiliência e capacidade de sacrifício são as principais características para se investir na agricultura em Moçambique, segundo Rui Brandão. O CEO da Casa do Agricultor fala-nos da estratégia na promoção e desenvolvimento do sector agrícola.

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Num país onde a agricultura é fundamentalmente de subsistência, como nasce a ideia de investir nesta área e qual é o perfil da casa do agricultor? Porque investir na agricultura? A Casa do Agricultor é marca de retalho utilizada pela TECAP já há muitos anos. A TECAP tem 30 anos de história e goza de grande credibilidade no mercado. O conceito da Casa do Agricultor é one stop shop para agricultura e pecuária. Disponibilizamos uma vasta gama de produtos tentando ser uma solução completa para os agricultores independentemente da sua dimensão. 80% da população trabalha a agricultura mas representa apenas 20% do PIB. Equilibrar estes rácios é um grande desafio ao qual nos associamos com a convicção que a agricultura Moçambicana reúne todos os requisitos para ter um futuro risonho. Transformar a agricultura de subsistência numa agricultura competitiva no mercado nacional e internacional, é uma inevitabilidade. A Casa do Agricultor não tem medo de ser protagonista e de assumir posições de liderança que visam mudar esta mentalidade. As nossas lojas e a nossa comunicação é moderna e positiva procurando massajar o ego dos agricultores por forma a que sintam orgulho na sua missão. Investir na agricultura em Moçambique requer visão de longo prazo, resiliência e capacidade de sacrifício… Felizmente sentimo-nos dotados destes super-poderes! O governo de Moçambique considera e prioriza a agricultura como o sector fundamental para o desenvolvimento do país. Que incentivos ou facilidades o governo tem dado para o exercício da vossa actividade?

O maior incentivo que tem vindo do Governo tem sido a posição corajosa de assumir a agricultura como prioridade.

Pessoalmente sou a favor que o sector privado deve-se escudar o menos possível no Estado e assumir o seu papel. No entanto, competindo num mercado global em que muitos países subsidiam fortemente a agricultura Moçambique tem que acompanhar. Laboratórios, infra-estruturas, seguros para agricultura deverão ser áreas em que Estado terá de continuar a investir para oferecer condições que potenciem o investimento na Agricultura.

Os agricultores reclamam acesso ao financiamento porque os bancos comerciais não dão crédito pois consideram a actividade agrícola de alto risco. A maioria das seguradoras não cobrem riscos de acidentes naturais. Como vocês tem sabido mitigar estes riscos e manterem uma relação comercial estável com os agricultores?

O fosso entre a banca comercial e os agricultores é enorme. Nós, a espaços, temos substituído a banca no financiamento dos agricultores mas essa não é claramente a nossa missão. No entanto, uma vez mais não tememos assumir protagonismo e acreditamos que podemos desempenhar um papel de interlocução e intermediação entre os agricultores e a banca. Um factor que seria de crucial importância para mitigar o risco de crédito seria a existência de seguros para a agricultura.

Explique sobre a vossa cadeia de valor. Onde começa a vossa intervenção e onde termina.

Muitas vezes a nossa intervenção nasce quando nasce o próprio agricultor apoiando-o na elaboração do Plano de negócios ou na escolha da tecnologia que melhor se adapta ao seu projecto. Depois, para além, do fornecimento dos insumos e equipamentos acompanhamos a produção através dos nossos técnicos. Muitas vezes aconselhamos até na colocação do mercado. O serviço ao cliente terá que ser sempre o nosso foco.

Como olha para o nicho de mercado agrícola, refiro-me ao produto acabado, que futuro se espelha?

O Agro-processamento e a conservação da produção agrícola podem funcionar como catalisadores da actividade. A questão é que para serem interessantes estes investimentos é importante que esteja garantida a existência de matéria prima para alimentá-los… Por outro lado, para os agricultores produzirem é importante que haja conservação e processamento ou seja que o mercado esteja garantido. Entramos num ciclo vicioso de onde é difícil sair. Estes ciclos viciosos rompem- se com o aparecimento de empresas pro activas que assumem o protagonismo, a liderança! Que avancem sem que todos os riscos estejam cobertos.

Durante anos jogamos ping-pong argumentando que a agricultura não se desenvolvia pois os agricultores não tinham acesso a produtos competitivos nas zonas rurais. Por outro lado, as empresas de distribuição advogavam que não havia mercado que o justificasse.

A TECAP através da Casa do Agricultor em 18 meses assumiu o protagonismo, saiu do sofá e assentou arraiais em Tete, Chimoio e Nampula com armazéns, comerciais, técnicos e lojas! Estabeleceu relações com 90 agrodealers e chegou a 15.000 agricultores.

Chega? Não! Estamos satisfeitos? Não! Mas acreditamos que estamos no caminho certo e que temos muitos adeptos. E todos os dias quando vamos para casa sentimos que estamos a contribuir de forma séria e responsável para mudar a vida das pessoas e isso é o melhor retorno que podemos ter.

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