Mais de uma década após o encerramento da Matchedje Motor, Moçambique está a dar passos concretos para recuperar a indústria de montagem de veículos automóveis, numa iniciativa que poderá marcar uma nova fase da industrialização nacional e da modernização do sistema de transportes.
O Conselho de Ministros autorizou, na sua 16.ª Sessão Ordinária, o Ministro dos Transportes e Logística, João Jorge Matlombe, a lançar um concurso público internacional, em regime de Parceria Público-Privada (PPP), para a selecção de um parceiro privado que ficará responsável pela implantação de uma unidade industrial de montagem de veículos automóveis no País.
A decisão surge num contexto em que o Governo procura reduzir a dependência das importações, criar empregos qualificados e estimular a transferência de tecnologia para a economia nacional. Segundo o Executivo, a futura unidade industrial deverá contribuir para a dinamização da indústria transformadora, ao mesmo tempo que reforça a capacidade produtiva do País.
Uma das particularidades do projecto é a aposta em soluções de mobilidade sustentável. De acordo com informações divulgadas após a reunião do Conselho de Ministros, a futura fábrica deverá privilegiar veículos movidos a energias limpas, incluindo gás natural e energia eléctrica, alinhando-se com a estratégia nacional de transição energética.
O porta-voz do Conselho de Ministros, Ussene Isse, explicou que a iniciativa responde aos elevados custos de aquisição de viaturas, particularmente autocarros, e à necessidade de desenvolver soluções adaptadas às condições moçambicanas.
“O projecto visa promover a montagem local de veículos, com destaque para autocarros movidos a gás e energia eléctrica, contribuindo para a redução dos custos de transporte e para a criação de emprego”, afirmou Ussene Isse após a sessão do Conselho de Ministros.
Segundo dados avançados pelo Governo, a utilização de tecnologias mais eficientes poderá reduzir os custos operacionais e de manutenção em cerca de 40%, representando uma oportunidade para a renovação gradual da frota de transporte público e privado.
O avanço do projecto ocorre poucos meses após a visita a Moçambique de uma delegação da empresa chinesa SG Automotive Group Co., especializada na produção de autocarros eléctricos, camiões e veículos comerciais. A empresa manifestou interesse em instalar uma unidade de montagem no País e realizou uma missão de prospecção para avaliar oportunidades de investimento.
Na ocasião, representantes da companhia destacaram o potencial do mercado moçambicano e a sua posição estratégica na região da África Austral. Informações divulgadas durante a visita indicam que o investimento poderá criar até três mil postos de trabalho directos, além de estimular o desenvolvimento de fornecedores nacionais ligados à cadeia de valor automóvel.
Entre os locais analisados para acolher a futura unidade industrial encontra-se o Parque Industrial de Moamba, na província de Maputo, considerado estratégico pela sua proximidade aos principais corredores logísticos e mercados regionais.
A nova iniciativa representa uma segunda tentativa de estabelecer uma indústria automóvel sustentável em Moçambique. A Matchedje Motor, lançada em 2014 através de uma parceria entre investidores moçambicanos e chineses, chegou a montar viaturas de passageiros, camiões e autocarros, mas encerrou as suas actividades poucos anos depois devido a constrangimentos ligados à dimensão reduzida do mercado interno, aos elevados custos de importação de componentes e às dificuldades de financiamento.
O Governo pretende agora evitar os erros do passado através de um modelo assente em parceria público-privada, procurando atrair operadores internacionais com experiência técnica e capacidade financeira para garantir a viabilidade do projecto e a sua sustentabilidade a longo prazo.
Especialistas consideram que a instalação de uma fábrica de montagem de veículos poderá ter efeitos multiplicadores na economia nacional, não apenas pela criação directa de empregos, mas também pelo desenvolvimento de sectores complementares, como a metalomecânica, a produção de componentes, a logística e os serviços de manutenção.
Além de fortalecer a base industrial do País, o projecto poderá posicionar Moçambique como uma futura plataforma regional para a montagem e distribuição de veículos na África Austral, aproveitando a sua localização estratégica, os seus portos e os corredores de desenvolvimento que ligam o interior do continente ao Oceano Índico.
Com o lançamento do concurso internacional já autorizado, os próximos meses serão determinantes para aferir o interesse dos investidores e a capacidade do País de concretizar um projecto que poderá contribuir para a diversificação da economia, a criação de emprego qualificado e a modernização do sector dos transportes.











