O Fundo de Energia (FUNAE) pretende entregar a exploração e gestão da Fábrica de Painéis Solares de Moçambique (FPSM), localizada no Parque Industrial de Beluluane, distrito de Boane, a um operador privado, numa tentativa de recuperar um dos mais emblemáticos investimentos públicos na indústria nacional de energias renováveis.
A iniciativa surge depois da unidade ter permanecido praticamente inactiva desde 2022, incapaz de competir com a crescente entrada de painéis solares importados, sobretudo da China, cujos preços mais baixos e avanços tecnológicos reduziram drasticamente a procura pela produção nacional.
A fábrica foi inaugurada em 2013, representando um investimento estratégico do Estado para promover a industrialização do sector das energias renováveis, reduzir a dependência das importações e apoiar os programas de electrificação rural conduzidos pelo FUNAE. Contudo, a rápida evolução tecnológica da indústria fotovoltaica mundial tornou obsoleta a linha de produção instalada.
Segundo dados do FUNAE, a unidade possui capacidade para fabricar cerca de 40 painéis solares por dia, produzindo módulos de até 270 watts-pico (Wp). Entretanto, o mercado internacional passou a privilegiar painéis com potências superiores a 600 Wp, mais eficientes e significativamente mais baratos, tornando a produção nacional pouco competitiva.
A paralisação da fábrica representa igualmente um encargo financeiro para o Estado. O Presidente do Conselho de Administração do FUNAE, Mety Gondola, revelou que a unidade gera custos fixos anuais de cerca de 18,75 milhões de meticais, apesar de não produzir. Os 14 trabalhadores actualmente afectos à fábrica deverão ser reafectados para outras áreas do FUNAE e instituições públicas.
Perante este cenário, o FUNAE decidiu procurar um parceiro privado para assumir a gestão da unidade, apostando num modelo que permita modernizar a tecnologia, melhorar a eficiência operacional e devolver viabilidade económica ao projecto. O concurso para a concessão da fábrica foi lançado com o objectivo de atrair investidores nacionais ou estrangeiros capazes de reposicionar a unidade no mercado.
A decisão reflecte uma mudança na estratégia do Governo para o sector. Em vez de manter uma gestão pública de uma unidade tecnologicamente ultrapassada, pretende-se mobilizar capital privado para actualizar a produção e adaptar a fábrica às exigências actuais da indústria fotovoltaica.
A perda de competitividade da unidade moçambicana acompanha uma tendência global. Nos últimos anos, a indústria chinesa consolidou a liderança mundial na produção de painéis solares, beneficiando de economias de escala, forte apoio industrial e investimentos contínuos em inovação. Como consequência, os preços internacionais caíram de forma significativa, dificultando a sobrevivência de fabricantes de menor dimensão, sobretudo em países em desenvolvimento.
Apesar das dificuldades, o Governo continua a considerar a fábrica um activo estratégico para a expansão do acesso à energia. O seu relançamento integra a estratégia nacional de electrificação através de sistemas solares e mini-redes, num contexto em que o FUNAE prevê mobilizar cerca de 197 milhões de dólares para financiar projectos privados de energias renováveis e implementar 363 mini-redes ao longo da próxima década, contribuindo para a meta de acesso universal à energia até 2030.
Caso a concessão seja bem-sucedida, a fábrica poderá voltar a desempenhar um papel relevante na cadeia de valor das energias renováveis em Moçambique. Contudo, especialistas defendem que o sucesso dependerá menos da concorrência directa com os gigantes asiáticos e mais da capacidade de oferecer soluções adaptadas ao mercado nacional, integrando produção, montagem, assistência técnica e fornecimento de sistemas completos para os programas de electrificação do país.










