Sou atrevido, gosto de transformar dificuldades em desafios
Américo Ferrão é um jovem empreendedor, proprietário da empresa Dinâmica Informática e Serviços, que opera na área de Consultoria em Informática. Faz manutenção de equipamento informático, cria de redes de computadores, vende material escolar e de escritório e outro tipo de serviços e produtos. Antes de se tornar um empreendedor, Américo exerceu várias profissões, como sejam vendedor ambulante, guarda e empregado doméstico. A revista “Negócios” conta, em exclusivo, a história deste jovem que poderá inspirar a juventude moçambicana.
Infância repleta de privações e penúria
Natural da província de Inhambane, distrito de Morrumbene, Américo Ferrão nasceu numa família de camponeses e teve uma infância modesta, como muitas crianças africanas. Aos 10 anos de idade, com a morte de seu pai, a condição financeira de sua família agudizou-se. Dos nove irmãos, cinco estudavam, incluindo o Américo, e passaram a depender apenas da mãe camponesa, quem conseguiu custear as despesas escolares até a 7ª classe, o maior nível existente na sua localidade na época. Neste contexto, Américo mudou-se para a sede distrital para prosseguir com os seus estudos, os quais, tempo depois, teve que interromper por falta de recursos. De regresso à casa, começa a fazer algumas actividades para ajudar a suprir as necessidades da família. “Comecei a construir pequenas casas de material local por encomenda, fazia esteiras, cortava caniço, extraia surra (nome local de uma bebida destilada) de palmar para vender, pastava cabritos e nos tempos livres ia à pesca no rio ou no oceano”.
Início titubeante na cidade de Maputo
Uma vez que a vontade de continuar a estudar persistia, Ferrão deslocou-se à cidade de Maputo, com a ajuda de um amigo, onde, inicialmente, vendeu pão no terminal rodoviário da Baixa da cidade. “Havia muita concorrência na venda de pães, por isso larguei o negócio e comecei a vender bolachas na baixa da cidade e nos mercados Fajardo e Malanga”, explica. O jovem continuou nessa actividade até que foi surpreendido por uma doença que o deixou internado por 15 dias. Sem condições para voltar a trabalhar, regressa à sua terra natal. “Quando cheguei a Morrumbene tive o apoio do meu irmão mais novo que tinha juntado algumas economias. No início do ano seguinte, com as baterias recarregadas, voltei a Maputo e comecei uma batalha em busca de emprego”. Como foi? “Não foi fácil?”, respondeu.
O primeiro emprego
O primeiro emprego de Américo surgiu quando um amigo e conterrâneo decidiu regressar à sua terra natal, deixando o posto de guarda residencial para si. Residindo num dos anexos da casa, Américo assumiu, também, funções de empregado doméstico e jardineiro, até que um inquilino transformou a sua casa em escritório. “Não perdi tempo, apresentei-me como a pessoa que cuidava da casa e ofereci os meus serviços. Eles contrataram-me e dessa forma abriram-se as portas para uma carreira profissional mais sólida. Ganhava um salário simbólico, com a promessa de aumento, consoante o meu desempenho”, relatou o jovem, acrescentando que com a nova gestão, para além dos trabalhos que já fazia, passou a fazer limpeza dos escritórios, a servir café, a fazer cópias e outras actividades.
Do regresso à escola à falência da empresa
Quando a sua situação financeira começou a melhorar, Américo decidiu voltar à escola e dar continuidade com os estudos, com vista a melhorar o seu nível acadêmico e conseguir um emprego melhor. Segundo o nosso entrevistado, durante o período em que trabalhava no escritório foi observando os outros colegas a usar o computador. Quando tinha algum trabalho da escola, explica, pedia ajuda a uma colega para digitar e, dessa forma, ia assimilando o bê-á-bá do computador. “Isso despertou em mim uma vontade de aprender mais sobre a informática e inscrevi-me num curso no Instituto de Línguas e, findo o curso, dedicava o meu tempo livre a praticar no computador do escritório. Foi daí que nasceu o gosto pela informática”, revelou. Américo conta que passados três anos a empresa entrou em falência e os trabalhadores foram transferidos para as empresas dos sócios. “Assim terminei o vínculo com a empresa e deram-me 24 horas para deixar os anexos da casa”, explicou.
“O filho pródigo” e o novo emprego
Sem muitas alternativas, Américo procurou ajuda do proprietário da casa, que o convidou a voltar a trabalhar na sua residência, onde permaneceu por cerca de oito meses. Depois foi trabalhar numa empresa de seguros como estafeta a convite de uma amiga. No novo emprego, para além do trabalho de estafeta, Américo fazia limpeza dos escritórios na ausência do responsável pela actividade. A fim de tentar uma progressão no trabalho e reverter este cenário, Américo passou a chegar ao escritório mais cedo, de modo a ajudar a sua colega do sector administrativo na digitação de cartas e outros documentos. A dado momento, conta, a empresa ganhou um concurso de prestação de serviços, o que veio a criar muita pressão ao sector administrativo, exigindo que a empresa contratasse mais funcionários. “Pensei em concorrer a uma das vagas porque gosto de desafios. Até porque se alguns contratados tinham algumas lacunas e foram aceites, por que é que eu não podia ser aceite? Mas não foi necessário concorrer porque uma das cartas que fiz foi parar nas mãos das directoras geral e técnica, as quais depois de alguns testes aprovaram o meu trabalho e fui promovido ao cargo de escriturário”. Nessa época, Américo frequentava o curso de Sistemas informáticos no ITC e já dava assistência informática aos colegas e foi colocado como responsável pela área informática, acumulando duas pastas. “Como responsável pela área de informática, realizei vários trabalhos, tais como a concepção da rede informática do novo edifício da empresa e a implementação do sistema eletrônico de assiduidade e pontualidade”. Mais tarde foi promovido a gestor de clientes, acrescendo as suas responsabilidades na empresa e, por inerência, também a pressão.
O início do seu empreendimento
Devido a desavenças com uma colega hierarquicamente superior, Américo deixou a empresa depois de nove anos de trabalho, tendo em mente, entretanto, a ideia de criar um empreendimento. ‘Quando começaram as perseguições, comecei a projectar um pequeno empreendimento. Eu já havia adquirido algum material informático num abate da empresa e nessa altura a minha irmã estava a fazer o curso de gestão de empresas em Inhambane, onde abri uma pequena reprografia e indiquei-a como gestora’, explica. Como a esmagadora maioria dos negócios, a Dinâmica Informática e Serviços contou com o apoio da ‘dona Elsa’, uma grande amiga e directora de uma das empresas em que trabalhou. A Elsa Santos, que na época era a gestora do Maputo Business Center, ofereceu ao Américo um espaço e equipamentos como mesas e cadeiras para abrir a sua empresa. Foi assim que nasceu a Dinâmica e Informática, em Outubro de 2018. “Eu gosto de desafios e sempre procuro transformar as dificuldades em desafios”, explica Américo, admitindo que enfrenta dificuldades criadas por ele mesmo ‘devido ao meu atrevimento. Por vezes corro atrás de algo, sem pesquisar devidamente como a coisa funciona.’
Algumas dificuldades
Um dos desafios enfrentados por Américo, tem que ver com o incumprimento de prazos por parte dos seus parceiros, razão pela qual “houve dias em que tive que fechar a empresa para ir até ao cliente para concluir um trabalho iniciado por um parceiro. Por vezes era algo que eu nunca tinha feito porque a informática é vasta e dinâmica. Aliás, foi daí que surgiu o nome da minha empresa’.
Desde a sua criação a esta parte, a Dinâmica Informática e Serviços conta com dois colaboradores e vem registando um crescimento assinalável, apesar dos efeitos negativos da Covid-19, os quais, segundo explica Américo, transforma em “desafios para o alcance dos objectivos”.
Compartilhar:
Últimas Notícias
Newsletter
Ao clicar no botão Inscrever-se, confirma que leu a nossa Política de Privacidade.










