Entre tantas maravilhas que constituem atractivos turísticos naturais, a revista ‘Negócios’ escolheu, desta feita, visitar a Ilha de Moçambique. Uma cidade insular situada na província de Nampula, no norte de Moçambique, a qual deu o nome ao País do qual foi a primeira capital.
De Maputo à Ilha de Moçambique
Recordo-me que eram cerca de 17h30 quando chegamos ao destino, ou mais concretamente à Ilha de Moçambique, sendo que o local de partida havia sido o Aeroporto Internacional de Maputo. Pelo meio havia ficado o Aeroporto Internacional de Nampula e uma viagem de automóvel que permitiu observar os gigantescos montes que pontilham a paisagem em torno da cidade de Nampula.
É uma visão absolutamente arrebatadora e recordo-me de ter pensado em múltiplos aproveitamentos de índole turística que aquelas formações rochosas poderiam vir a proporcionar. Uma das ideias que surgiu foi a organização de um festival aéreo naquela área geográfica ao estilo da famosa marca de refrigerantes ‘Red Bull’. Seria absolutamente magnífico observar os aviões em acrobacias, a atravessar os céus e a fazer voos rasantes aos chamados inselbergs. Esse festival e um concurso de alpinismo selvagem, entre outras alternativas do agrado do público local e visitante, seriam uma boa proposta, quanto mais não fosse atractiva. Fica aqui feita a provocação.
Mas o que são inselbergs? O termo inselberg, do alemão “monte ilha”, foi introduzido pelo geólogo alemão Friedrich Bornhardt, em 1900, para caracterizar montanhas pré-cambrianas, geralmente monolíticas de gnaisse e granito, que emergem abruptamente da terra. Nampula é pululado por estes montes e ganha um look.
A região, pelas suas características naturais tão belas como imponentes, propicia toda um leque não só de desportos como de iniciativas lúdicas e culturais. E, de facto, é uma pena que a província de Nampula não explore mais as suas riquezas a este nível. Aos olhos do turista seria muito mais entusiasmante contar com um nível maior de agitação e com actividades lúdicas, desportivas e culturais mais frequentes e diversificadas nas suas agendas. Mais iniciativas poderiam conduzir à abertura de mais hotéis; restaurantes; lojas de recuerdos; empresas de passeios; de aluguer de carros e bicicletas, de organização de viagens, entre outros empreendimentos bem-vindos.
E foi com estes pensamentos que fui percorrendo o caminho entre Nampula e a Ilha de Moçambique, com a intermitência dos inúmeros vendedores informais a vender porções de caju, à beira da estrada. Sim, porque Nampula é a maior produtora desta commodity em Moçambique e é justamente lá que se encontram os cajus de maior qualidade do mercado e que são alvo de exportação para lugares longínquos como a Índia, a Europa e os Estados Unidos da América.
A estrada de acesso, e que dá tanto para chegar à Ilha de Moçambique como à cidade de Nacala, encontra-se em muito boas condições em termos de piso, pese embora o condutor tenha de ter particular atenção aos condutores mais incautos que circulam nela. E como a viagem se faz aos apitos, como forma de avisar condutores e transeuntes, fica na memória o som da buzina do carro entrecortada com as imagens corridas das localidades, do campo.
Chegados à Ilha de Moçambique, foi uma experiência única circular numa ponte sui generis, onde só cabe uma viatura de cada vez. É um caso de único de paciência e mestria, pois só cabe mesmo um automóvel ou motorizada de cada vez, pelo que a recomendação é keep calm e aproveite as paragens para ver as vistas, os pescadores a cirandar nos seus barcos e concentrados na apanha do peixe à rede dentro da água. Um espelho d’água que fica imerso nos sonhos de quem aguarda a sua vez.
No ambiente místico da Ilha
No final da ponte, eis-nos na finalmente na Ilha. A chegada decorreu à noite, mas a envolvente mística foi de imediato um factor activo, pois a sensação que se tem é a de um regresso imediato ao passado. As ruas da Ilha emanam uma sensação de que retrocedemos séculos no tempo. Aliás, o grau de antiguidade das casas e dos monumentos reflectem um ambiente mágico, digno de inspirar escritores, músicos, artistas plásticos e fotógrafos. E como foram tiradas fotos!…
Ao longo de um pequeno briefing dado pelo simpático Alfeu, o motorista do Hotel Omuhipiti, onde iria ser a estadia, ficamos a saber que o mesmo é neto de um dos primeiros presidentes do Município da Ilha de Moçambique e que havia dois pontos de convergência no local. Um com as atracções de índole cultural e histórica e outro personificado pelo bairro de Macuti. Foi para Macuti que o povo local foi sendo arrastado pelos senhores detentores da autoridade na Ilha, na altura.
Chegados ao Hotel Omuhipiti, cujo nome significa esconderijo em macua, a recepção não poderia ter sido mais agradável. Após termos tirado as máscaras, por imposição das regras de higiene e segurança impostas pela pandemia da Covid-19, nada como um sumo de água de côco para nos hidratar e nos deixar bem-dispostos. Valeu!
E depois de um banho bem merecido, o jantar no Omuhipiti foi uma surpresa pela positiva para todos os comensais. As lagostas grelhadas foram uma opção deliciosa pois o chef do Hotel foi minucioso quanto ao tempero, o tempo de repouso na grelha e os sucos imbuídos no corpo daqueles mariscos que são pescados nas águas do Índico, que residem em redor da Ilha.
Mas a ementa não se quedou por aí. Nota 10 para o Omuhipiti por apostar na gastronomia tradicional! Uma das iguarias apresentadas foi o caril de siri-siri, a acompanhar um peixe pescado no próprio dia, cuja carne grelhada se descolou da espinha aos lombos com um arroz de côco – outro dos bens naturais proporcionados pela terra.
O que é siri-siri? Pergunta o leitor mais atento e muito bem. Siri-siri é uma planta que germina e brota nos mangais circundantes, mas que, embora seja profuso na região, não existe muita gente que o saiba confeccionar na perfeição (com o recurso ao caju e ao côco, produtos reconhecidamente locais). Apenas alguns nativos da Ilha de Moçambique dominam a arte, numa tradição gastronómica que passa seguramente de pais para filhos, ao sabor do tempo e da história. Mas a esta história retornaremos mais adiante.
Os poderes mágicos das suas ruas e casas
A Ilha de Moçambique é, sem dúvida, um dos lugares turísticos com maior interesse histórico-cultural de Moçambique e também um dos mais belos. Hoje em dia, grande parte das suas construções encontram-se em ruínas, mas, apesar desse facto, o spot mantém o seu índice de atractividade e funciona como um íman, convencendo turistas e visitantes a conhecer os seus tesouros.
A área total do distrito é de 245 km2, e divide-se em duas localidades: Goa (São Jorge), junto às ilhas de São Lourenço e Sena (São Tiago), e Lumbo, na parte continental e de maior extensão – que encerra o que muitos dizem ser os ‘fantasmas da guerra’.
A Ilha conta com grandes reservas de peixe e de moluscos, que são exploradas pela sua população. Aliás, a maior parte das famílias sobrevive retirando os recursos naturais do mar como a garoupa, o papagaio, o peixe pedra, o carapau e a sardinha. Segundo um dos mergulhadores, o mar já deu mais frutos, mas ainda é suficiente para alimentar toda uma comunidade que vive dele. Por outro lado, na parte continental a produção principal é o arroz e o sal.
A atmosfera que se respira na Ilha de Moçambique é especial, sobretudo devido à fascinante arquitectura dos edifícios, sendo alguns conservam resquícios da época em que a localidade ainda era a capital de Moçambique. Um certo ar decadente embriaga a Ilha, que ao mesmo tempo se transformou no símbolo dos românticos, viajantes, curiosos, solitários e aventureiros.
A maior parte da sua população vive no que apelidam de ‘Cidade de Macuti’, uma extensão de casas que perfaz um quarto de todo o território. Metade do Macuti constitui a ‘Cidade da Pedra’, uma cidade velha, mas ao mesmo tempo um prodígio da arquitectura aonde se encontram os edifícios mais emblemáticos e as casas de origem colonial. Um passeio a pé revela uma zona extremamente bela. A outra porção da Ilha é ocupada por cemitérios, fortalezas e espaços verdes. A igreja junto ao hospital delimita claramente as fronteiras entre a Cidade Antiga e a Cidade de Macuti.
É uma sensação única deixarmo-nos levar pelos contos encerrados entre paredes deste lugar mágico e pelas ruas que nos transportam a outros tempos.
A cidade histórica foi considerada pela UNESCO ‘Património Mundial da Humanidade’, m 1991. É, sem dúvida, um dos locais mais emblemáticos do País e conta com uma população maioritariamente pertencente à etnia Macua. Possui um valor turístico indesmentível e conta com alojamentos diversificados, que vão desde a gama alta às alternativas mais acessíveis.
Passeios históricos
É impossível falar da história de Moçambique sem falar da Ilha de Moçambique. A história da navegação da costa moçambicana, o negócio de escravos, do ouro e do marfim tiveram o seu ponto de convergência neste paradeiro.
Ao longo dos séculos, a Ilha transformou-se num centro de comércio do Oceano Índico e ganhou uma importância estratégica como escala de navegação da carreira da Índia que ligava Lisboa a Goa. Na Ilha cruzaram-se as culturas de África, Europa, Arábia e Índias Orientais, facto que se reflecte na paisagem arquitectónica e no mosaico cultural e humano.
Relatos sobre Vasco da Gama, o primeiro português que pisou a Ilha, em 1498 e sobre a comunidade árabe que se estabeleceu no território do séc. X ao início do séc. XVI, dedicando-se ao comércio do ouro, o qual trocavam por mercadorias provenientes da Ásia. Recordações do século XV, época em que a Ilha de Moçambique era um sultanato fundado por Moussa e Hassan, ambos naturais da Tanzânia. Histórias do comércio com a Índia e da ocupação do território pelo povo luso e do início da construção da Fortaleza de São Sebastião em 1558, com o fito de impedir os ataques por parte dos árabes e indianos e, posteriormente, deter os franceses e holandeses. Dados como a construção do hospital, algumas igrejas e da fortaleza em finais do séc. XVI exibem a importância da Ilha num período em que o ouro, a prata e o marfim eram os principais produtos de intercâmbio.
Todo este rosário de histórias foi-nos transmitido num passeio pelo guia turístico Abdul que nos levou aos ex-libris da terra. Segundo o mesmo, na década de 60 do séc. XX, com a guerra de libertação posterior guerra civil, muita gente procurou refúgio na Ilha de Moçambique.
O turismo como alavanca da economia
E depois de um passeio pela Ilha, voltamos ao Hotel Omuhipiti – um estabelecimento muito bem situado na Ilha de Moçambique, a apenas 500 metros da estátua de Luís Vaz de Camões e pertíssimo da Fortaleza, que disponibiliza acomodações de qualidade e todas as condições para um turista registar momentos inesquecíveis vividos lá.
No seu lobby encontramos o empresário Eduardo Abdula, mais conhecido e tratado por Salimo, e que é o seu sócio-gerente.
Da conversa com Salimo, entendemos que os principais países emissores do turismo internacional para a Ilha de Moçambique, para além do turismo doméstico, continuam a ser Portugal, Reino Unido, Estados Unidos, Alemanha, Holanda, França, Itália, India, Paquistão e China. Sendo que, neste momento, persistem grandes dificuldades no desenvolvimento do seu negócio tendo em conta a conjuntura mundial superveniente do aparecimento do coronavírus e da Covid-19.
Para o empresário Salimo que, além do hotel Omuhipiti é também proprietário do Hotel Chocas Mar, em Nampula, e de um outro complexo turístico situado na Ponta do Ouro (no sul de Moçambique), chamado Villa Grande, o Governo deve continuar a apostar na promoção desta indústria no processo de desenho de estratégias de reorientação da economia do País.
A esse propósito, a última informação dada pelo presidente da república Filipe Nyusi sobre a abertura da emissão de vistos de turismo, assim como a isenção da quarentena para os recém-chegados a Moçambique, mostra claramente a extrema importância que o Governo dá a indústria turística, e servem de incentivo para os turistas visitarem Moçambique.
Salimo não só é um empreendedor de mão cheia como um promotor de jovens empresários e do desenvolvimento sustentável local. Um dos apoios que o seu Hotel dá passa por patrocinar o Instituto Médio Politécnico da Ilha de Moçambique (IMPIM), uma instituição criada em 1879 como Escola de Artes e Ofícios da Ilha de Moçambique, que hoje lecciona os cursos de Restaurante e Bar e de Construção Civil e Serralharia.
De acordo com Jaime Miriel, um dos membros do staff do Omuhipiti e docente do IMPIM, o Hotel Omuhipiti dá apoio em produtos alimentares para o internato do Instituto, a eventos em materiais e produtos, e, recentemente, disponibilizou uma equipa para desinfectar todo o edifício e os equipamentos da escola e ainda ofereceu produtos de higiene e protecção contra a Covid-19.
Durante o tempo em que estivemos com ele, ficamos admirados pela positiva com a forma como auxilia outras empresas da cadeia de valor do turismo na Ilha.
Um dos sintomas foi ter-nos sugerido os serviços da Vivo Island Safaris, pertencente a Abdul, um empreendedor que criou a sua empresa faz quatro anos, tem 5 colaboradores e possui quatro embarcações marítimas tradicionais (dhows) na sua frota, três barcos com motor e outro com motor e vela. Por semana, Abdul tem transportado cerca de 3 turistas por dia e 300 por ano. De cada vez que zarpa da Ilha de Moçambique leva turistas para as ilhas vizinhas (Ilhas de Goa, de Sete Paus, e das Cobras) e oferece lanches, pic nics, e actividades de snorkeling.
Ao longo dos percursos, Abdul vai contando histórias sobre os pescadores e suas vicissitudes. Sobre como, ao longo do dia, trabalham na pesca à vez e ocupam três horários diferentes (manhã, tarde e noite). O curioso é que uns pescam à linha, com gaiola e arpão. Nem de propósito fui encontrar um pescador, Mupaira de seu nome, que usava o arpão para apanhar os peixes e secava-os ao ar livre na Ilha de Goa, mesmo junto ao farol a que subimos – um lugar sublime sob o ponto de vista turístico e que conta com um edifício, infelizmente, degradado e com uma equipa de faloreiros, com a qual confraternizamos.
Enquanto passeávamos a pé do farol para o Dhow, Abdul relatava histórias de turistas que haviam feito campismo selvagem e presenciado os caranguejos gigantes da ilha, quando a ideia era observarem as tartarugas. E assomou-me a ideia de poder percorrer aquela ilha a cavalo ou de bicicleta todo-o-terreno. Que bom seria! Quem sabe um dia, o turismo crie asas naquelas bandas e
Abdul é um excelente cicerone e faz jus ao que de melhor existe na Ilha de Moçambique, a cultura, a história, a arquitectura, a gastronomia. Aliás, foi ele que nos presenteou com uma formação relâmpago sobre os siri-siris. Neto de uma senhora que é tida como exímia preparadora daquele pitéu, adverte para o facto de que quem o manuseia tem de saber lavar bem e muito – pelo menos quatro vezes e deve também saber como o confeccionar. Aliás, refere que a sua avó foi uma das pessoas que ensinou os cozinheiros dos hotéis e restaurantes a cozinhar o siri-siri e que ainda hoje os traz da localidade de Cabeceira Pequena, em Mossuril.
Onde o mar tem os seus segredos
Entre a ilha de Goa e a de Sete Paus, Abdul pediu para desligar os motores e içar as velas do Dhow em que viajávamos. Fez-se um silêncio sepulcral no barco. Toda a gente embarcou num estranho estado de espiritualidade, e a vista, o marulhar da água no casco do barco em muito ajudaram. Os tons da água perto da Ilha dos Sete Paus são absolutamente maravilhosos, entre o azul marinho e o verde-turquesa. E a transparência da água revela a fauna existente.
O vento insuflou as velas e a brisa do mar envolveu-nos numa viagem inesquecível, que veio a terminar na praia da Carrusca – outro destino lindo. Uma vez chegados, surgiram os artesãos e vendedores de artesanato a mostrar o leque dos seus tesouros. Peças mais ou menos pequenas feitas à base de conchas, côco, folhas de palmeiras e missangas, muitas missangas. Foi ainda possível ver e comprar peças como uma pulseira feita à base de pele e cobre (numa junção de artefactos antigos e da época dita colonial).
Sugere-se um drink ali no restaurante mesmo em frente à praia, depois de uns bos mergulhos no mar. Mas se o turista é dos inquietos e gosta de conhecer algo mais, então pegue no carro e vá até às Chocas. Uma vez lá, e depois de termos socializado com os locais, fomos almoçar ao Hotel Chocas Mar do Salimo. Um primor de comida. A sugestão recaiu sobre uns camarões bem grelhados e uma garoupa deliciosa.
O Hotel das Chocas, além de muito boas condições de hospitalidade, possui um staff muito simpático e fica mesmo perto da praia, onde os locais retiram os moluscos das rochas. Toda a região circundante à Ilha de Moçambique possui atractivos únicos. Uns explorados mas muitos ainda por explorar.
Sob o ponto de vista de um turista que é igualmente empresário, a ideia que fica é que falta uma injecção de turismo integrado na região, pois nem só de uma proposta vive o visitante. É preciso criar toda uma cadeia de valor que possa incrementar e promover boas propostas de estadia, visita bem como a organização de actividades ou iniciativas culturais, históricas, desportivas que envolvam a gastronomia, a arquitectura, o artesanato local e tradicional.
Moçambique possui um potencial turístico baseado fundamentalmente em ricos recursos naturais, numa cultura diversificada e num povo particularmente hospitaleiro. A combinação do turismo de praia tropical, ao longo da imensa costa, a qualidade de parques e reservas naturais com a vida cosmopolita das cidades, a rica diversidade da flora e fauna, assim como o magnífico mosaico cultural, oferecem, sem dúvida, uma plataforma sustentável para um destino turístico de incontestável beleza e interesse.










