Lara Matsinhe fala de recomeços como quem os viveu por dentro. “Sou uma mulher que transformou o recomeço num projecto de vida”, afirma, com a clareza de quem aprendeu a não romantizar a dor, mas também a não fugir dela. Começou na confeitaria há mais de vinte anos, numa altura em que a publicidade era limitada e o acesso à formação quase inexistente. “O maior desafio era mesmo a publicidade e a formação”, recorda, sublinhando que, apesar disso, conseguiu conquistar clientes e afirmar-se num sector exigente.
Com o passar dos anos, o contexto mudou e Lara adaptou-se. “Hoje já não preciso de aceitação, consigo invadir o mercado sei me posicionar”, diz, apontando a tecnologia e a internet como ferramentas que abriram novas portas. Mas quando parecia finalmente estabilizada, as manifestações forçaram o encerramento do restaurante. A decisão de fechar foi pesada, emocional e financeiramente. “Era um marco para mim, vinha de um recomeço pessoal, e abandonar aquilo parecia fracasso”, confessa, explicando que fechar foi, paradoxalmente, um acto de coragem.
A maior ruptura surgiu com a saúde. Entre diagnósticos falhados, dores constantes e uma passagem pela sala de reanimação, Lara confrontou-se com a fragilidade da vida. “Cheguei a pensar que seria a próxima”, admite. As restrições alimentares e a impossibilidade de recorrer a medicação convencional colocaram-na diante de um impasse diário: o que comer para sobreviver. “Acordei num dia e não sabia o que comer. Chorei bastante”, lembra. Foi então que a cozinheira falou mais alto: “A sopa não precisa de ser horrível”. A partir daí, começou a criar, testar e reinventar a comida como forma de cura.
Quando voltou a circular pela cidade, a exclusão tornou-se evidente. “Ia aos restaurantes e não tinha o que comer. Aos cafés, também não.” Essa dificuldade revelou-lhe uma lacuna no mercado e, sobretudo, um propósito. “O que eu estou a comer é o que todos deveríamos comer”, defende, recusando a ideia de que alimentação saudável seja sinónimo de castigo. Para Lara, o problema nunca foi a comida, mas a forma como é pensada, preparada e apresentada. “Quero trazer uma comida saudável, mas bonita, saborosa, apetecível.”
Mais do que um negócio, o projecto tornou-se missão. Lara Matsinhe fala de mente, emoções, stress e hábitos como partes inseparáveis da saúde. Reduziu medicação, surpreendeu médicos e encontrou equilíbrio. Aceitou reduzir o nicho, reformulou a forma de trabalhar e continuou a recomeçar, também fora da cozinha, em contextos profissionais onde já foi líder, caixa de banco e novamente líder. “O que não está no teu controlo, não foques nisso”, aprendeu a repetir.
Hoje, Lara não se define apenas como cozinheira ou empreendedora, mas como alguém em reconstrução consciente. “Sou co-criadora da minha realidade”, afirma. A sua história não pede aplausos nem promessas futuras. Fecha-se em si mesma, como um ciclo que encontrou sentido: a dor virou conhecimento, o medo virou direcção e o recomeço deixou de ser um ponto de chegada para se tornar, simplesmente, um modo de vida.








