O reposicionamento táctico da China na economia global

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Moçambique foi, entre 2003 e 2017, o quinto maior recipiente africano de investimentos chineses, depois de países como Egipto, Nigéria, Argélia e África do Sul. No ano 2000, o comércio entre África e a China andava à volta de meros 10 biliões de dólares. Em 2014, este valor havia crescido para se situar nos 220 biliões, 20 vezes mais, de acordo com China África Research, na John Hopkins School of Advanced International Studies, embora depois estes volumes tenham decrescido ligeiramente devido a baixos preços das commodities. Ao longo deste período, os volumes do investimento directo chinês haviam crescido dos 2% dos níveis do investimento americano para 55%, alcançando biliões de dólares de novos investimentos em cada ano. A China contribui com cerca de um sexto de todos os empréstimos a África, de acordo com um estudo da John Thornton China Center, na Brookings Institution.

Esses níveis de envolvimento da China com África são encarados, em vários sectores, no continente e no mundo, com muita suspeita. Muitas pessoas, incluindo africanos, não se sentem confortáveis com o que encaram como ocupação neocolonial de terras, nas quais empresas chinesas, actuando em nome do seu país, extraem recursos minerais em troca de infra-estruturas e financiamento, vistos como tendo o potencial de deixar governos com elevados montantes de dívidas. Neste aspecto particular, será o comportamento das empresas chinesas e seus bancos radicalmente diferente daquele demonstrado pelas empresas e instituições ocidentais? Não nos parece!

As suspeitas induzidas nos africanos sobre a China não são novas. A minha infância decorreu num período em que a luta de libertação nacional, em Moçambique, estava ao rubro. Apesar de que a minha aldeia natal, Madzukane (Provincia de Gaza, distrito de Mandlakaze), localizava-se distante do teatro das operações militares, na altura concentradas nas províncias de Cabo Delgado, Niassa, Tete, Manica e Sofala, a propaganda anti-chinesa, instigada pelo aparelho psicossocial do exército colonial, estava bastante presente na zona onde eu vivia. Eu e os meus amigos de infância crescemos a acreditar que os chineses comiam pessoas, principalmente crianças. Na educação orientada para o ódio a tudo a que fosse chinês, éramos encorajados, antes de cruzarmos a estrada, a verificar se não viriam por aí chineses que nos pudessem raptar, cozinhar e comer-nos!

Essa propaganda não cessou, embora tenha assumido novos contornos. Muitos africanos acreditam piamente, hoje, que tudo o que é chinês é de baixa qualidade. Nesta crença, que é muito difundida pelos meios de comunicação social, africanos e mundiais, as estradas chinesas seriam sem qualidade. Os edifícios chineses seriam sem qualidade. Os produtos industriais chineses – roupa, calcado, viaturas, maquinaria, electrodomésticos – seriam sem qualidade. Felizmente, e devido ao grande número de jovens africanos que vão estudar à China, e devido também a muitos empreendedores e negociantes africanos que visitam regularmente aquele país, há cada vez menos espaço para o sucesso dessa propaganda. Muitos africanos têm tido a oportunidade de testemunhar que a República Popular da China é uma grande nação, cuja indústria, cujas infra-estruturas, cujos edifícios públicos e habitacionais e, no geral, cujo progresso, emulam os das grandes nações do mundo.

Há meros 10 anos, quando eu próprio exercia funções governativas em Moçambique, muitos de nós acreditávamos que pouco de bom poderia provir da China. Foi necessário que o Presidente da República na altura, Armando Guebuza, tomasse a decisão de mandar-nos em grupos para em visita de vários dias conhecermos aquele país “in loco”. No caso dos vice-ministros, foram todos juntos, embora tenham ido em voos diferentes.

Os ministros foram em três ou quatro grupos. Foi uma experiência interessante, que permitiu um conhecimento directo dos progressos daquele gigante asiático.

O que muitos cépticos, africanos e de outros quadrantes do mundo, não logram vislumbrar é que o engajamento da China com África segue uma estratégia muito bem delineada. Na verdade, África seria apenas um estágio primário, um teste se quisermos, de um ambicioso programa de internacionalização da China e da sua economia.

A República Popular da China pretende constituir-se num actor cada vez mais global, concentrando-se nesta fase em estradas, portos, linhas férreas e outras infra-estruturas, numa espécie de uma Nova Rota da Seda, que teria precisamente aquele país como o centro da vasta teia. Esta é, quanto a mim, o cerne da estratégia. Uma estratégia tão legítima como aquelas seguidas por todos os países, grandes ou pequenos, poderosos ou frágeis.

O que estaria por detrás do programa da Nova Rota da Seda são poderosas forças comerciais e geopolíticas, sendo que aquelas que têm a ver com o excesso de capacidade da indústria chinesa estariam em primeiro lugar. Refiro-me aqui às indústrias de aço e de equipamento pesado. Este excesso de capacidade necessita de rotas para o exterior, considerando que o mercado doméstico já não possui capacidade de absorção. Neste sentido, a abertura de novos mercados poderia ser um caminho para garantir uma economia chinesa cada vez mais florescente. Estaríamos, assim, perante um reposicionamento táctico da China na economia global. Assim, parece claro que as relações com a ASEAN, com Ásia Central, com Europa e com África só poderão melhorar de maneira significativa se a China continuar a direccionar mais capital ao desenvolvimento de infra-estruturas não só em África, mas também em muitas outras regiões do mundo.

Os estrategas chineses deram-se conta de que, ao reforçar as suas relações económicas e culturais com outros países, nesta fase inicial com enfoque em África, aquele país do extreme oriente estaria a cimentar o seu estatuto como actor dominante nos assuntos mundiais. E não seria a primeira vez que essa linha estratégica estaria a ser perseguida. Entre os anos 1405 e 1433, a dinastia Ming organizou poderosas expedições marítimas, comandadas por um mítico almirante de nome Zheng He. Essa frota, que estaria composta por 200 embarcações, incluindo navios de guerra, navios de abastecimento, navios com água potável e navios de transporte de cavalos, alcançou o Oceano Índico, navegou inclusivamente por toda a África Oriental, tendo chegado até à região que hoje é Moçambique. Alguns historiadores consideram Zheng He um embaixador da cultura e da boa vontade de uma nação poderosa, mas pacífica. Outros consideram que a sua missão prefigurava uma ideia de posicionamento político, económico e estratégico à escala global, em muitos aspectos similar à contemporânea Nova Rota da Seda.

Sem embargo da propaganda hostil que cerca as relações entre África e China, hoje é perfeitamente claro que elas têm vindo a alterar a narrativa do relacionamento entre doadores e países em desenvolvimento.

Para uma significativa parte da opinião pública africana, se é verdade que as relações com a China apresentam riscos, elas trazem, ao mesmo tempo, benefícios tangíveis, na forma de infra-estruturas e financiamento. Os africanos têm isto em grande conta, principalmente se se considerar que o continente tem estado, ao longo de décadas, trancado numa improdutiva relação com os doadores tradicionais que, se é verdade que também trouxeram biliões de dólares em ajuda ao desenvolvimento, entre as décadas 80 e 90 do século passado, trouxeram também o que muitos consideram ruinosas prescrições das instituições de Bretton Woods, que levaram os nossos países a inexplicáveis níveis de estagnação. Sobretudo, a China traz infra-estruturas – estradas, pontes, barragens, linhas férreas – que, se bem geridas, podem ser catalisadoras do desenvolvimento do nosso continente.

 

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