Da gestão de resíduos à energia limpa

A transição energética em Moçambique está a ganhar novo fôlego com o avanço de soluções de biogás adaptadas à realidade local. No centro desta transformação está a SolarGas NLG, uma empresa fundada por jovens engenheiros moçambicanos especializados em energias renováveis, que tem vindo a instalar sistemas modernos de biodigestão em várias províncias do país.

Entre os projectos mais emblemáticos destaca-se o sistema instalado na Quinta Mothassy, na cidade de Maputo — um projecto-piloto desenvolvido em parceria com a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) e a UNIDO, que serve hoje de referência para agricultores, instituições e potenciais investidores interessados nesta tecnologia.

Uma empresa nascida da ciência

A SolarGas NLG nasceu da investigação académica de Marta Nhanombe, directora-geral da empresa, engenheira e pós-graduada em Ciência e Tecnologias de Energias Renováveis. A experiência adquirida durante a sua dissertação abriu caminho para a criação de uma solução local, tecnicamente robusta e financeiramente ajustada à realidade moçambicana.

“O nosso objectivo é reduzir os custos energéticos das empresas e transformar o que antes era descartado em valor. O biogás permite isso: fornece energia, reduz despesas e gera fertilizante orgânico”, explica Nhanombe.

A empresa trabalha com biodigestores pré-fabricados, adquiridos no mercado chinês, mas adaptados com especificações técnicas próprias, resultantes de testes contínuos e processos de melhoria incremental.

Como funciona o sistema?

O biodigestor instalado na Quinta Mothassy foi dimensionado especificamente para o volume de resíduos produzidos na propriedade. A tecnologia baseia-se na fermentação anaeróbica de resíduos orgânicos, sobretudo excrementos de galinha poedeira e de porco.

“Misturamos 75 quilos de excremento de galinha e 50 quilos de excremento de porco com água, numa proporção cuidadosamente calculada. O material permanece cerca de 30 dias no interior do biodigestor, produzindo biogás diariamente. No final do ciclo, obtém-se o biofertilizante, rico em nutrientes”, detalha Nhanombe.

O sistema integra recirculação automática, garantindo maior homogeneidade da mistura e aumento da produção de biogás, um processo de purificação que remove água, dióxido de carbono e sulfureto de hidrogénio, bem como um gasómetro com capacidade de 6 metros cúbicos, destinado ao armazenamento do gás para uso diário.

“O único componente combustível do biogás é o metano. Todo o equipamento é concebido para maximizar a sua percentagem e garantir um bom poder calorífico”, sublinha.

A SolarGas assegura igualmente assistência técnica regular, através de visitas frequentes dos engenheiros Agostinho Magenge e Salomão Vutane. “Deslocamo-nos duas a três vezes por semana para verificar a correcta utilização do sistema, a alimentação do biodigestor e prestar apoio sempre que surgem dúvidas”, explica Magenge.

Quinta Mothassy: um laboratório vivo da tecnologia

A Quinta Mothassy tornou-se um verdadeiro laboratório vivo do impacto da tecnologia desenvolvida pela SolarGas. O biodigestor fornece biogás para cozinhar e produz biofertilizante, utilizado na horta e nas bananeiras da propriedade.

Segundo o gestor Emílio Nhancole, a instalação do sistema foi motivada pelos frequentes cortes no fornecimento de energia eléctrica na zona. “Aqui temos incubadoras e pintos pequenos. Se a corrente falha durante duas horas, há prejuízos. O biogás veio resolver esse problema.”

A médio prazo, a quinta prevê produzir energia eléctrica a partir do biogás, assim que atingir a capacidade mínima de acumulação necessária.

Apesar das limitações pontuais na disponibilidade de matéria-prima, resultantes de surtos de doenças animais e do impacto da seca, a SolarGas continua a acompanhar de perto a operação e a optimizar o desempenho do sistema.

Modelo de negócio: democratizar o acesso à energia

A SolarGas não se limita à instalação de equipamentos — a sua ambição é democratizar o acesso à energia limpa.

“Infelizmente, quem mais precisa de energia é, muitas vezes, quem menos capacidade financeira tem para adquirir um equipamento completo. Estamos a desenvolver modelos de pagamento faseado, para que famílias e pequenas actividades económicas possam ter acesso a estas soluções”, sublinha Marta Nhanombe.

Actualmente, a empresa disponibiliza sistemas de biogás, fogões melhorados, kits solares domésticos, briquetes e soluções de carvão ecológico.

A participação em feiras como a FACIM e a presença activa nas redes sociais têm permitido à SolarGas atrair a atenção de financiadores, organizações não governamentais e clientes privados, apresentando soluções integradas para comunidades sem acesso à energia moderna.

O sistema instalado em Maputo integra um conjunto de cerca de 30 biodigestores implementados no âmbito do programa UEM–UNIDO, sobretudo na província de Inhambane, onde restaurantes e famílias rurais utilizam a tecnologia com excrementos bovinos.

Com uma vida útil mínima estimada em 15 anos, o equipamento afirma-se como uma ferramenta estratégica para a redução de custos energéticos e emissões, ao mesmo tempo que melhora a produtividade agrícola através do uso de fertilizante orgânico.

SolarGas como referência nacional

Com uma equipa jovem, multidisciplinar e tecnicamente sólida, a SolarGas NLG está a afirmar-se como uma referência no ecossistema das energias renováveis em Moçambique. A empresa distingue-se pela capacidade de integrar tecnologia acessível, assistência técnica contínua e soluções ajustadas ao contexto rural e periurbano.

Num país onde milhões de pessoas ainda não têm acesso regular à energia, a SolarGas demonstra que a inovação local, aliada ao conhecimento científico e à visão empresarial, pode redesenhar o futuro energético nacional.

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