A Agriview, start-up moçambicana fundada por Rui Bauhofer e Joaquim Rabelo, acaba de conquistar um dos mais prestigiados reconhecimentos africanos na área da engenharia sustentável: o Prémio One to Watch, atribuído no âmbito do Africa Prize for Engineering Innovation, da Royal Academy of Engineering.
A distinção, anunciada em Dakar, no Senegal, colocou Moçambique no pódio da inovação ambiental, graças a uma ideia simples, sustentável e inteiramente local: transformar casca de milho em loiça e utensílios biodegradáveis e germináveis.
“A Agriview é uma empresa dedicada à produção de produtos biodegradáveis e germináveis, em substituição do plástico. Estamos inseridos na indústria de gestão de resíduos agrícolas e na economia circular”, explica Rui Bauhofer.
Fundada há três anos, a start-up prepara-se agora para iniciar a fase de comercialização. “Prevemos começar a comercializar no próximo ano, a princípio no primeiro trimestre”, confirma o cofundador.
Uma ideia que nasce nas ruas de Maputo
O conceito da Agriview tem raízes inesperadas. Inspirados, em 2012, por uma empresa da América Central que produzia pratos biodegradáveis a partir da casca de ananás, Rui e Joaquim procuraram uma alternativa que fizesse sentido no contexto moçambicano.
“Sabíamos que o ananás não é uma cultura produzida todo o ano em Moçambique. Era preciso encontrar outra matéria-prima”, recorda Rui.
A resposta surgiu do quotidiano urbano. “Um dia, ao comprarmos maçaroca cozida nas ruas de Maputo, foi-nos servida numa casca de maçaroca. A partir daí, a ideia ganhou forma”, conta.
A dupla retomou então o projecto inicial, realizou estudos, testes e protótipos, até desenvolver produtos mínimos viáveis — os mesmos que acabariam por conquistar o prémio internacional.
Processo simples, impacto elevado
Joaquim Rabelo descreve o processo produtivo de forma clara e directa: “Adquirimos as cascas de maçaroca a pequenos agricultores e vendedores informais. Depois lavamos, deixamos de molho, trituramos e transformamos em polpa, que moldamos em vários produtos: embalagens takeaway, copos, favos e pratos, que são o nosso principal produto.”
A sustentabilidade vai além do material utilizado. Toda a cadeia de produção reforça o impacto social e ambiental. “Os nossos produtos são canalizados através dos pequenos agricultores. Além de biodegradáveis, são germináveis: após o descarte no solo e rega, podem dar origem a uma hortícola ou a uma árvore.”
Este ciclo natural permite às empresas utilizadoras reforçarem os seus relatórios ESG. “Apoiamos as empresas a atingirem os seus objectivos de desenvolvimento sustentável, o que abre portas para financiamentos e linhas verdes, hoje uma tendência global”, acrescenta Joaquim.
De Moçambique para o mundo
O percurso até à vitória no Africa Prize for Engineering Innovation foi exigente. “Concorríamos com mais de dois mil candidatos. Fomos seleccionados entre os 16 finalistas, passámos oito meses em incubação com participantes de cerca de 30 países e ficámos entre os cinco vencedores”, explica Rui Bauhofer.
Esta foi a primeira vez que Moçambique participou no programa — e saiu premiado.
Para o cofundador, o significado vai além da distinção individual: “Este prémio é carregar com orgulho a bandeira de Moçambique e provar que aqui também se inova ao mais alto nível. Estamos cá para ficar.”
Foco na fábrica e na escala comercial
Apesar do reconhecimento internacional, a equipa mantém os pés bem assentes no chão. “A divulgação não é o nosso foco imediato. O essencial agora é montar a fábrica e iniciar a produção em escala comercial”, afirma Joaquim.
A Agriview está a trabalhar com engenheiros, fornecedores locais e a Fundação Universitária da UEM para desenvolver maquinaria própria, evitando a dependência de importações. “Queremos apostar no conteúdo local, produzir as nossas próprias máquinas e desenhar toda a linha de produção internamente.”
Para além da casca de milho, o pipeline de inovação inclui outras matérias orgânicas, como casca de coco e folhas de bananeira. Ainda assim, a prioridade é clara: consolidar primeiro a produção de loiça biodegradável e, só depois, expandir.
Mesmo antes da produção industrial, a procura já se faz sentir. “Temos potenciais clientes, incluindo bancos, uma produtora de eventos e uma produtora de gelados artesanais em Inhambane”, revela Joaquim.
E o interesse tende a crescer, sobretudo entre empresas com metas ambientais bem definidas. “Quanto mais empresas utilizarem os nossos produtos, mais dados são gerados e mais valor é agregado — para o meio ambiente e para as próprias organizações”, sublinha Rui.
Hoje, a Agriview afirma-se como símbolo de uma nova geração de empreendedores moçambicanos: inovadores, resilientes e comprometidos com soluções que transformam desafios ambientais em oportunidades económicas. Um verdadeiro talento da casa que projecta Moçambique no mapa da inovação global.











