Biscate, a tecnologia que liga a economia informal ao mercado

Num país onde o emprego formal permanece escasso face à dimensão da força laboral, o sector informal continua a assumir-se como o principal amortecedor social e económico. Em Moçambique, milhões de cidadãos dependem diariamente de actividades independentes, desde pequenos serviços técnicos até trabalhos ocasionais, para sustentar as suas famílias. É neste contexto que o Biscate emerge como uma das plataformas digitais mais relevantes no apoio aos trabalhadores informais.

Criado pela UX Information Technologies Lda, o Biscate nasceu da constatação de uma realidade estrutural. “Existe cerca de um milhão de empregos formais para uma força laboral de aproximadamente 14 milhões de pessoas, o que significa que a maioria dos moçambicanos tem de criar as suas próprias oportunidades”, explica Tiago Coelho, fundador e administrador-geral.

Acesso ao mercado como factor determinante

Mais do que um simples directório digital, o Biscate foi concebido como uma ferramenta de acesso ao mercado. A plataforma permite que qualquer trabalhador crie um perfil profissional, descreva as suas competências, indique a sua localização e se torne visível para potenciais clientes.

“O Biscate não garante trabalho, oferece o meio para que o trabalho aconteça”, sublinha Coelho. “Providenciamos visibilidade, transformamos alguém desconhecido num profissional encontrável.”

Um dos elementos mais diferenciadores reside na sua arquitectura inclusiva. A plataforma foi desenhada para funcionar mesmo em telemóveis básicos, sem necessidade de ligação contínua à internet, uma decisão estratégica num país onde persistem fortes assimetrias no acesso digital.

Organizar o informal sem o descaracterizar

Num contexto em que cerca de 90 por cento da força laboral opera no sector informal, soluções digitais enfrentam o desafio de criar valor sem impor barreiras. O modelo do Biscate é gratuito tanto para trabalhadores como para clientes.

“A nossa ambição nunca foi cobrar ao trabalhador informal. Queríamos remover obstáculos, não criar novos”, afirma Coelho.

Ainda assim, a plataforma introduz uma lógica de reputação digital. As avaliações dos clientes permitem distinguir profissionais mais consistentes, promovendo um sistema assente no mérito. “Quem presta um bom serviço ganha visibilidade, quem não corresponde às expectativas perde relevância.”

De acordo com dados da empresa, o Biscate conta actualmente com cerca de 140 mil trabalhadores registados em todos os distritos do país, abrangendo quase uma centena de profissões, tendo já intermediado centenas de milhares de oportunidades de trabalho.

Evidência empírica e resiliência económica

Para além dos indicadores operacionais, estudos académicos reforçam o impacto económico das plataformas digitais no contexto moçambicano.

Uma análise publicada pelo UNU WIDER concluiu que, durante a pandemia da Covid 19, a procura por serviços na plataforma aumentou entre 20 e 40 por cento no primeiro ano da crise. Em termos práticos, a taxa de tarefas acordadas aumentou de cerca de 1,6 para 2,3 tarefas semanais por cada 100 trabalhadores registados, contrariando expectativas de colapso da procura.

Outro estudo, divulgado no World Bank Economic Review, analisou o impacto destas plataformas em graduados de institutos técnico profissionais. Embora os efeitos médios sobre emprego e rendimento tenham sido moderados, observaram-se diferenças relevantes por género, com maior benefício para os homens e maior selectividade por parte das mulheres, frequentemente associada a constrangimentos sociais e expectativas salariais.

“Os estudos mostram que o impacto existe, mas não é uniforme. Persistem desafios estruturais relacionados com género, acesso à tecnologia e mobilidade”, observa Coelho.

 

Rendimento, inclusão e resposta à crise

Para além dos estudos, a experiência prática demonstra o papel da plataforma em contextos de crise. Durante a pandemia, o Biscate foi utilizado para mobilizar costureiros em várias províncias na produção de máscaras, criando fontes alternativas de rendimento num período de paralisação económica.

Esta capacidade evidencia o potencial da plataforma como infra-estrutura económica distribuída. “Temos carpinteiros, electricistas, costureiras, pessoas com competências e equipamentos. O Biscate funciona como elemento agregador.”

A economia invisível que sustenta o país

A relevância do sector informal ultrapassa a dimensão social. Estimativas indicam que actividades informais contribuem com cerca de 40 por cento do Produto Interno Bruto.

“O informal não é marginal, é central. É uma verdadeira máquina da economia moçambicana, embora muitas vezes ignorada nas políticas públicas”, defende Coelho.

Neste contexto, plataformas digitais podem desempenhar um papel estratégico na transição gradual para a formalização. O primeiro passo passa pelo reconhecimento, medição e organização da actividade, criando condições para inclusão financeira, acesso ao crédito e protecção social.

 

Parcerias como motor de crescimento

Sem um modelo de monetização directa, o crescimento do Biscate tem sido impulsionado por parcerias estratégicas. A colaboração com a Vodacom foi determinante na fase inicial, permitindo o acesso à plataforma através de USSD.

A ferramenta tem sido igualmente utilizada em programas de empregabilidade e desenvolvimento promovidos por organizações multilaterais, incluindo o Banco Mundial.

Desafios regulatórios e sustentabilidade

Apesar dos avanços, persistem desafios significativos. Alterações regulatórias recentes afectaram componentes operacionais, nomeadamente a utilização de SMS para comunicação com utilizadores.

“Algumas legislações não anteciparam a existência de serviços digitais gratuitos com função social”, refere Coelho.

Outro desafio central prende-se com a sustentabilidade financeira. A ausência de receitas directas limita a capacidade de investimento em crescimento, marketing e inovação.

Tecnologia com função económica

O caso do Biscate ilustra uma transformação estrutural, a digitalização progressiva da economia informal. A tecnologia não substitui o sector, mas contribui para o organizar, ampliar e tornar mensurável.

“Estamos a dar identidade digital a trabalhadores que sempre existiram. Não estamos a criar o informal, estamos a ligá-lo ao mercado”, conclui Tiago Coelho.

Num país onde o empreendedorismo surge frequentemente da necessidade, plataformas como o Biscate deixam de ser apenas soluções tecnológicas. Afirmam-se como infra-estruturas económicas emergentes, com impacto directo no rendimento, na visibilidade e na dinâmica da economia real.

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