Melhor aprendizagem vs. melhor desempenho

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Quando decidimos produzir alguma coisa, devemos aprender quanto antes como plantar e cuidar, desde a sementeira até à colheita, para que o produto que vamos obter, seja ele para o consumo próprio seja para o mercado, tenha a qualidade e o tamanho desejado pelos consumidores. É neste contexto que existe o popular provérbio “é de pequeno que se torce o pepino”, usado para transmitir a ideia de que, quanto mais cedo se ensina, melhores são os resultados presentes e futuros.

Na educação financeira também é assim. Quanto mais cedo aprendemos e exercitamos sobre recursos financeiros, menos erros cometemos no futuro e melhores decisões tomamos.

Os que produzem pepino precisam dar a melhor forma às plantas, retirando-lhes uns “olhinhos” para que os frutos se desenvolvam com a qualidade desejada. Se não for feita esta pequena mas significativa poda, os pepinos não crescem da melhor maneira porque criam uma rama sem valor e adquirem um gosto desagradável.

Não queremos ter no presente nem no futuro cidadãos que utilizam e aplicam mal o conceito de educação financeira, confundindo-o com ganância nociva a terceiros, tornando o dinheiro um problema e não meio de solução. Assim como é necessário dar quanto antes a melhor forma aos pepinos, também é necessário moldar e clarificar o conceito e a aplicabilidade da educação financeira o mais cedo possível.

Temos assistido, nos últimos tempos, no mercado nacional, a um movimento significativo em prol da educação financeira, em que diferentes instituições, governamentais e não-governamentais, “finalmente descobriram” e fortemente abraçaram este movimento sobre dinheiro, com foco na poupança, investimento, seguros e empreededorismo. Espero que não seja um movimento temporário, muito menos para o “inglês ver”; afinal, é importante falar de dinheiro hoje, tal como foi no passado e será no futuro, em diferentes dimensões em que este possa estar. Por isso, é melhor não confundirmos: a educação ou gestão de dinheiro faz parte da educação financeira, mas não na sua totalidade ou exclusividade temática.

A educação financeira é muito mais que educação de dinheiro e muito mais ainda que gestão ou formação financeira, uma vez que a educação financeira actua para o desenvolvimento de atitudes, comportamentos e habilidades para tomada de decisões sobre recursos financeiros, que vão além de dinheiro. Aqui falamos de recursos financeiros e não somente de dinheiro, porque falamos do recurso tempo, conhecimento, informação, bens materiais como casa, carro, mobiliário e todos os outros bens tangíveis e não tangíveis mas passíveis de se transformar em moeda comum ou num bem de troca. Em outras palavras, são os activos que têm algum grau de liquidez.

Como tenho dito, a educação financeira é a capacidade de se tomar a melhor decisão na utilização e multiplicação de recursos financeiros, mantendo o equilíbrio entre a razão e emoção. Se para um adulto não é fácil gerir, controlar e equilibrar a emoção e razão na hora de tomar uma determinada decisão de conquista, manutenção ou utilização de recursos financeiros, imagine-se este processo de decisão para uma criança ou um adolescente. Para complicar, imagine a mesma situação para quem teve a oportunidade de estudar e para quem não teve, num país como o nosso, onde 45% da população acima dos 15 anos de idade é analfabeta, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE, Anuário Estatístico, 2016). E tal como defende Warren BuÃet, “quem não sabe controlar as suas emoções não terá a capacidade de controlar o seu dinheiro e outros recursos”.

O movimento sobre educação financeira que temos vindo a assistir é positivo, mas peca por confundir educação financeira com educação e gestão de dinheiro e, muitas vezes, confundir com educação bancária e de seguros, fazendo com que os conteúdos difundidos estejam desalinhados e além das capacidades de compreensão dos grupos-alvo – adultos, jovens ou crianças. Pelo que urge a necessidade de revistarmos, com a devida urgência, estes conceitos e o modo como são transmitidos, sob o risco de estarmos a apelar e a promover atitudes e comportamentos menos desejados. Como diz o Provérbios bíblico 22,6, “ensina a criança o caminho em que deve andar e mesmo quando for velho não se desviará dele”, mas é mais importante ainda podar o pepino enquanto pequeno.

Se um recurso é um meio, podendo ser de todo o tipo, que permite obter algo que se pretende, a educação financeira não se pode restringir a conhecer os bancos, taxas de juros, bolsa de valores, seguros e ou poupança, mas sim promover o desenvolvimento de capacidade e atitude de saber aplicar e gerir os recursos financeiros (dinheiro, tempo, conhecimento, informação, etc.), para ganhos maiores, consumidores e investidores mais responsáveis e, acima de tudo, melhor qualidade de vida. Neste campo, além de passarmos informação financeira, devemos trabalhar para a mudança de comportamentos e maneiras como muitos de nós encaramos a vida sem responsabilidade financeira. É neste pressuposto que não devemos confundir educação financeira com educação exclusiva de dinheiro.

Ora, se o desenvolvimento de um país depende da existência de um ecossistema empresarial forte e este, por sua vez, depende de um bom ambiente de negócios, caracterizado por inovação, tecnologia e empreendedorismo empresarial crescente e abrangente, podemos, com uma margem de erro mínima, afirmar que, nesta fórmula, a educação financeira tem um papel fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade. Tal como defendem os especialistas de investimentos, o sucesso nos investimentos não tem a ver somente com o QI (inteligência intelectual), mas é necessário o temperamento correcto (inteligência emocional) para evitar cair nas armadilhas de curto prazo, que prejudicam a maioria dos investidores – uma ideia extraída do livro “O jogo do Dinheiro” (Anthony Robbins, 2014).

E não foi por acaso que desde o ápice da aceitação da existência da crise financeira que Moçambique vive neste quinquénio as entidades formais e informais têm vindo a confirmar que a causa de base desta crise é a falta de poupança interna, apelando-se ao aumento da produção interna, bem como à racionalização do consumo individual e colectivo. Por outras palavras, para sairmos da crise económico-financeira e desenvolvermos a Pátria Amada de forma sustentável, precisamos de estar mais financeiramente educados, principalmente os que tomam decisões sobre os nossos recursos financeiros e económicos colectivos – desde a família ao Estado. Não podemos confundir educação financeira com educação exclusiva de dinheiro!

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