Edson Chilengue: Quando a visão move a tecnologia

Num continente onde as transformações tecnológicas avançam a ritmos desiguais, a história de Edson Chilengue impõe-se como um testemunho de visão, resiliência e liderança à escala multinacional. Não é engenheiro informático, nem nasceu rodeado de linhas de código ou servidores. Formou-se em Finanças. Mas foram precisamente as voltas inesperadas do destino que o conduziram ao coração do desenvolvimento tecnológico africano e ao comando de uma das empresas mais inovadoras do sector a ITGest.

“Na verdade, eu não sou formado em áreas de tecnologia, sou financeiro”, recorda. Tudo começou quando foi seleccionado, entre mais de quinhentas pessoas, para integrar um pequeno grupo destinado a especializar-se em sistemas integrados de gestão no Zimbabwe. “Fiz parte de um grupo pequeno que foi seleccionado… e estive fora numa exposição muito grande durante quase quatro anos.”

A oportunidade, que muitos encarariam como uma simples deslocação profissional, transformou-se num ponto de viragem. Trabalhou com multinacionais, percorreu países africanos e mergulhou em realidades profundamente diferentes da que conhecia em Moçambique. Essa vivência despertou uma paixão inesperada: “Essa exposição permitiu-me perceber, na essência, o que é tecnologia.”

Edson regressou com uma bagagem técnica sofisticada e com a consciência de que o futuro dos negócios dependeria da capacidade de integrar tecnologia, cultura local e estratégia empresarial. Hoje ocupa posições de liderança no grupo Dinâmicas, presente em Moçambique, Angola, Cabo Verde, Portugal… “A estratégia do grupo sempre foi potenciar os mercados em que operávamos”, explica. A expansão tornou-se mais do que geográfica: tornou-se filosófica. Cada país é tratado como único, irrepetível e digno de uma abordagem própria.

Essa maturidade manifesta-se na forma como dirige equipas multiculturais. “O tipo de colaboradores que eu tenho em Moçambique é diferente do tipo de colaboradores que eu tenho em Angola”, afirma. “Embora seja tudo África, nós temos diferenças. É importante ajustar o negócio à cultura de cada uma das geografias onde operamos.” Essa sensibilidade, confessa, tem sido um dos grandes pilares da liderança que exercidos pelo grupo ao longo de quase vinte anos de actividade no continente.

Outro pilar desta trajectória é a construção de relações de confiança com instituições financeiras de peso, como o Banco de Moçambique, o Banco Nacional de Angola, o Standard Bank, o BCI ou o ABSA. “Entregamos soluções que respondem às necessidades deles e que geram valor”, sublinha. E há uma regra interna que nunca falha: “Sempre que ganhamos um projecto, tratamos aquele projecto como se fosse o único.”

Sob a sua direcção, a empresa implementou soluções disruptivas para o sector bancário. Entre elas, um sistema centralizado de gestão de conteúdos corporativos que substitui processos manuais ultrapassados. “Os bancos tinham que ir com um flash… isto, para uma era digital, não faz sentido.” A solução passou por criar uma plataforma capaz de gerir todas as televisões de todas as agências a nível nacional, a partir de um único ponto.

Também optimizaram o sistema de compensação de transacções ATM, resolvendo fragilidades antes naturalizadas pelos bancos. Ver para além do óbvio tornou-se marca registada: “O nosso trabalho é ver para além daquilo que conseguimos enxergar com os olhos.”

A segurança e o cumprimento regulatório são outra área em que o grupo se destaca. “Temos uma equipa de jurídicos e de assessores que, assim que há um decreto ou uma lei publicada, devem analisar e produzir um documento de apoio”, explica. Desde legislação sobre IVA até regulamentos de cloud, tudo é estudado e traduzido em acções concretas, garantindo que clientes e operações se mantêm sólidos e conformes.

O futuro não se desenha a preto e branco — desenha-se em expansão. “Temos a ambição de nos tornar uma das maiores empresas tecnológicas em África e no mundo.” O grupo já trabalha em países francófonos e anglófonos e prepara-se para consolidar este crescimento com o mesmo princípio de sempre: presença local, cultura local, impacto local.

A mensagem de Edson aos jovens empreendedores reflecte a sua própria jornada. “O mercado é muito dinâmico. O que ontem era um desafio hoje já não é.” Aconselha agressividade estratégica, foco total no cliente e, acima de tudo, investimento nas pessoas. “Nós formamos pessoas em cada um dos países onde operamos e essas pessoas é que entregam os nossos projectos.”

Em Moçambique, todos os quase quarenta colaboradores são moçambicanos. Em Angola, 95% são angolanos. É a prova viva de que excelência tecnológica africana nasce do investimento no talento africano.

No fim, Edson Chilengue encarna aquilo que África mais precisa: líderes jovens preparados, ousados, comprometidos com o desenvolvimento do continente e capazes de transformar conhecimento em impacto. A sua história não é apenas inspiradora; é um convite directo a todos os jovens africanos para acreditarem que o futuro tecnológico do continente também pode ser escrito por eles.

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