Salão ‘Carapinha’ promove o estilo natural

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Cláudio Chipanga é um jovem empreendedor e proprietário do “Salão Afrocêntrico Carapinha”, especializado no tratamento de cabelos naturais e dreadlocks. Volvidos 20 anos neste empreendimento, Chipanga explica que criou o negócio motivado pelo preconceito a que era sujeito e porque na época não existiam estabelecimentos especializados.

 

O nome do empreendimento e a investigação

O jovem empreendedor explica ter baptizado o seu salão de “Carapinha” com o intuito de valorizar o cabelo natural, contrapondo-se ao paradigma social de então que marginalizava os portadores. O negócio foi concebido para ser um salão vocacionado para o tratamento natural do cabelo, mas usava produtos com componentes químicos importados da Europa e da África do Sul. “Daí começamos a investigar algumas formas de tratamento de cabelos que os nossos antepassados usavam, como, por exemplo, a hidratação”, contou. “Como é que era o tratamento do cabelo no nosso país antes de termos os shampoos embalados nas prateleiras das lojas?”, questiona, prosseguindo assim: “fomos atrás dessa informação e tivemos um reencontro com o ‘Lilhelhwa’, planta babosa usada para lavar o cabelo”.

 

O jovem conta que no decorrer das suas investigações conheceu a Bio Óleos de Miombo, uma empresa nacional vocacionada na produção de cosméticos há mais de 15 anos, com a qual estabeleceu uma parceria. Trata-se de uma organização certificada, que faz parte de uma rede de empresas da África Austral que transforma esse tipo de matéria-prima em cosméticos. “Nem toda a matéria-prima usada em cosméticos existe em Moçambique, e são encontrados nos países da África Austral que fazem parte da rede de empresas, da mesma forma que também fornecemos matéria-prima aos países que precisam”, explicou.

 

O papel do irmão mais velho

Chipanga conta que o seu irmão mais velho foi a sua principal fonte de inspiração. “O meu irmão fez parte do grupo de jovens que emigrou para a África do Sul nos anos 80 e das várias habilidades que ele tinha, acabou por trabalhar num salão de cabeleireiro onde fazia cortes de cabelos. Ele chegou a conquistar o prémio de melhor corte da África Austral em 1994, o que projectou muito a sua carreira e me motivou bastante, pois vi que era possível prosseguir com o meu projecto, ser bem-sucedido e ter liberdade financeira”.

Motivado pelo percurso do seu irmão, o jovem empreendedor tinha na época 16 anos e teve que trabalhar numa agência de publicidade para conseguir fundos para o início do seu projecto. “Investi com o pouco valor que consegui, comecei a montar o salão de cabeleireiro”, explicou Chipanga, acrescentando que, nos primeiros anos, não foi fácil encontrar clientes que admirassem os cabelos naturais, pois o mercado era dominado pelos artificiais ou transformados na base em químicos.

 

 

‘Txuri’

Feito de madeira, o ‘Txuri’ é uma plataforma móvel usada para a lavagem de cabelo. Surge num contexto em que havia a necessidade de divulgar os serviços do salão. Devido às limitações financeiras, “era mais fácil pagar uma taxa para participarmos em feiras”, explica o empreendedor, questionando: “Como transferir um salão de cabeleireiro para uma feira?”. “Desenvolvemos este lavatório para facilitar a lavagem de cabelo nas feiras e assim fazíamos o que mais sabemos fazer, que é tratar o cabelo natural. Já tínhamos a arte de tratar o cabelo natural, já estávamos a usar produtos naturais, desenhamos um lavatório prático e dessa forma acrescentamos mais um valor ao nosso conceito”, explica Chipanga.

 

O impacto da Covid-19 e os projectos comunitários

O “Carapinha” não escapou à crise provocada pela pandemia da Covid-19. Uma das medidas tomadas para fazer face à crise foi o encerramento da sucursal da Matola, localizada no bairro Patrice Lumumba. “Encerrei o salão do Patrice Lumumba por conta das crises que o país e o mundo estão a atravessar. É um sonho grande, mobilizo muitas pessoas, mas investir na expansão sozinho não é fácil, pois é preciso ter uma equipa que acompanha com o mesmo compromisso”, explica.

 

Recentemente, Cadino Chipanga começou a trabalhar na formação de novos cabeleireiros, tendo criado o projecto de salões comunitários com o intuito de levar um trabalho de qualidade a preços acessíveis. “Nesses ambientes, estamos a tentar descobrir e alavancar talentos, pois sabemos que dentro das comunidades existem muitas pessoas que sabem mexer com o cabelo, faltando um espaço para poderem mostrar e dar visibilidade a esse talento”.

 

O preconceito não ofuscou os seus sonhos

Chipanga conta que, ao longo da sua carreira profissional, conviveu com pessoas preconceituosas, que se deixavam levar pelo status quo, não aceitavam mudanças e pretendiam ofuscar os seus sonhos. Ao mesmo tempo, entretanto, diz ter sido apoiado por pessoas que acreditavam no seu projecto, sendo que a maior parte destas, conta o jovem empreendedor, são letradas, agentes culturais, músicos e artistas plásticos. Explica que com o apoio dessas pessoas conseguiu gradualmente influenciar a sociedade. “Hoje, olho para trás e afirmo que contribuí para a mudança de mentalidade porque já é possível encontrar nas ruas muitas pessoas usando cabelo natural, algumas com ‘dreadlocks’, outras com ‘afro’.”

 

O jovem empreendedor faz um balanço positivo dos 20 anos do “Carapinha”, afirmando que sempre pôs “a arte em primeiro lugar e depois o dinheiro”, já que “se fizesse o contrário, talvez já tivesse desistido deste projecto”. Afirma ter transmitido a mensagem que pretendia com o projecto. “Cheguei lá e toquei fundo. Em termos artísticos, nós estamos aptos para concorrer a nível internacional. Com o percurso que temos aqui em Moçambique, se estivéssemos em outras praças, a nossa realidade seria diferente”.

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