O sucesso de “Comboio de Sal e Açúcar”

Realizado por Licínio Azevedo, “Comboio de Sal e Açúcar” é um filme com números expressivos: é uma co-produção entre cinco países que já ganhou nove prémios internacionais; foi exibido em festivais de 12 países; possui cerca de 20 personagens; 70 profissionais estiveram envolvidos na sua produção e pós-produção; foram usados até 300 figurantes nas gravações; foi visto por mais de 6000 espectadores em cinemas da cidade de Maputo e Matola; e contou com um orçamento de cerca de 90 milhões de meticais.

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Os números acima fazem de “Comboio” um filme grandioso e de sucesso. Fruto de uma co-produção entre Portugal, Brasil, França, África do Sul e Moçambique, o mesmo foi lançada em 2016. O seu êxito, acredita Azevedo, deve-se ao seu género: “Deve-se principalmente ao género do filme, que chamo de western africano. O western é o meu género preferido. O filme é de acção, de guerra. As pessoas ligam-se à história do começo ao fim. No meio há uma história de amor e há muitas cenas de guerra. O filme é bastante complexo e o seu tema é moderno.”

A produção tem como protagonistas uma enfermeira e um militar que se apaixonam na década de 1980, época em que Moçambique estava mergulhado numa guerra civil que destruía infra-estruturas, inclusive as açucareiras, fazendo com que houvesse uma carência de açúcar no mercado. Em contrapartida, muito sal era produzido no litoral e o açúcar abundava no vizinho Malawi. No norte do país, muitas mulheres viajavam durante três meses, num trajecto de 700 quilómetros de comboio, para ir ao Malawi trocar o sal pelo açúcar.

Na época, Azevedo acompanhou a saga de perto e quis registar tudo num documentário. Contudo, ninguém aceitou colocar em risco equipamentos de gravações que podiam ser destruídos pela guerra no percurso da viagem. Então, o realizador viajou sozinho, entrevistando os passageiros do comboio. Das entrevistas, escreveu e publicou um livro homónimo que agora ganhou essa adaptação em formato de filme.

Quando se pesquisavam as locações, a ideia era que as gravações ocorressem no norte do país, no trajecto original do comboio. Mas o cenário lá encontrado é outro. “Queríamos filmar no norte. Fizemos pesquisas de locação por lá. Mas as linhas [férreas] estão modernizadas. São linhas duplas, já não são simples. Os comboios têm outras cores. As estações estão completamente modificadas. E transportar a equipa de filmagens para lá seria muito caro”, justifica-se Azevedo.

Sem condições de se trabalhar no norte, fizeram- se pesquisas no sul do país, tendo sido encontradas locações em Ressano Garcia, Moamba, Boane, Goba e Matola-Gare. “Tivemos a sorte de encontrar, entre Ressano Garcia e Moamba, uma estação completamente destruída. Não só a estação, mas também uma pequena vila com casas de alvenaria e chaminés enormes. Tudo isso estava destruído e abandonado”, conta Azevedo. “Depois de desistir do norte e vir fazer as pesquisas de locações no sul, quando vi tudo aquilo fiquei estarrecido. Se fôssemos a criar aquele cenário gastaríamos uma fortuna. Tivemos uma sorte muito grande”, acredita.

Também se teria gasto uma “fortuna” se os Caminhos- de-Ferro de Moçambique não tivessem aceitado apoiar a produção do fi lme, ao disponibilizar as locomotivas que foram usadas nos trabalhos, assim como as estações e as linhas férreas. E também se o Ministério da Defesa não tivesse treinado alguns actores do fi lme e disponibilizado armas e militares para actuarem em cenas de guerra da produção. Segundo o realizador, esse apoio teve um valor inestimável.

Desde que foi lançado, o “Comboio” passou por festivais de países como Tunísia, Egipto, África do Sul, Suíça, Nova Zelândia, Austrália, Índia, Alemanha, México, Brasil, Maurícias e EUA. E o público que atraiu em Moçambique é mais que o dobro do que “Virgem Margarida” (2012, do mesmo realizador) conseguira atrair. Aliás, o sucesso de “Virgem”, que conquistou 28 prémios a nível internacional, ajudou a fazer com que “Comboio” não tivesse muitas dificuldades para conseguir financiamento.

Azevedo lamenta o facto de as produções nacionais não estarem a ter nenhum financiamento do Estado. “Temos a Lei do Cinema, que prevê um fundo que nunca saiu. Quando se tem o projecto de um fi lme, é importante que nacionalmente ganhe um fundo (mesmo que seja de 5 por cento), para que ao participar em concursos internacionais se chegue lá com alguma coisa”, aponta.

É com o objectivo de participar em concursos internacionais que Azevedo (ao lado de Carlos Patraquim) está a desenvolver o guião do seu próximo trabalho, que se chama “O Desaparecido” e é livremente inspirado num facto que aconteceu em 1971. “Um navio saiu do Porto de Maputo em direcção Porto de Pemba. Tinha cerca de 20 tripulantes (metade portugueses e metade moçambicanos) e um carregamento de armas”, relata. “O navio desapareceu e semanas depois foi encontrado na região de Nacala sem nenhum tripulante e sem nenhuma arma. Lá dentro, só havia um gato sujo de sangue. Passados 40 anos, nenhum tripulante foi encontrado e ninguém assumiu o ataque”, fecha.

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