“Da luta pela vida surgiu este negócio”

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Uma vida saudável é seguramente o maior desejo de todos. Afinal, sem saúde a vida não tem o mesmo significado. Assim foi com Helga Patrícia, que nasceu com a doença celíaca, uma condição rara, que a deixou debilitada ao longo dos seus primeiros 20 anos vida, até que teve o diagnóstico, e com ele vieram as restrições que mudaram completamente a sua dieta alimentar e o seu modo de vida no geral. Sem opções, Helga adaptou-se à sua nova condição e, hoje, ajuda pessoas que vivem situações similares.

A doença celíaca é uma condição autoimune causada pela intolerância ao glúten, proteína que pode ser encontrada no trigo, na aveia, no centeio e na cevada e seus derivados. Trata-se de um distúrbio crónico que afecta o intestino delgado, tanto em adultos como em crianças, e é causada pela atrofia da mucosa do intestino delgado levando à má absorção dos nutrientes e dos sais minerais.

“Sempre fui uma criança doente, e quando fosse ao hospital diziam que estava tudo bem”, recorda-se Helga Patrícia, com tristeza.

Os principais sintomas desta doença incluem problemas gastrointestinais como a dor de barriga, a diarreia crónica, a distensão abdominal, a má-absorção intestinal, a desnutrição, a anemia e a perda de apetite. Entretanto, apesar dos inúmeros sintomas, é uma doença de difícil diagnóstico.

“Com o passar do tempo, os médicos desconfiavam que fosse gastrite, e fui crescendo com aquelas dores, até que, aos 20 anos de idade, tornou-se um caso muito grave, fiquei de cama, já não andava, não conseguia falar e nem abrir os olhos.

Após muitas idas ao hospital e sem sucesso, a família decidiu buscar soluções na vizinha África do Sul e lá igualmente nada foi detectado, até que: “o médico decidiu fazer um teste pois notou que o caso não era normal. Fizeram um teste com uma bolacha e quanto a ingeri, passei muito mal. O médico recomendou que regressássemos a Moçambique e fizéssemos o teste de sensibilidade. Foi assim que descobriram que sou doente celíaca e que a doença não tem cura”, explicou Helga Patrícia.

 

Depois do diagnóstico bem feito

A jovem conta que, no início, foi muito difícil assimilar aquela situação, principalmente nos primeiros dois anos, tendo sido necessário passar por consultas com um psicólogo e um nutricionista que a ajudaram no processo de adaptação à nova realidade.

“As consultas com o psicólogo eram para me ajudar a me adaptar, porque não é fácil, eu levava uma vida normal e, de repente, tive que cortar quase tudo, já não podia comer mais bolos, pães, e eu não aceitava aquela situação”, revelou.

Com a ajuda dos profissionais de saúde e sem outras alternativas, Helga Patrícia começou a conformar-se com a sua nova condição e a procurar soluções para a sua sobrevivência.

“Comecei a buscar receitas na ‘internet’ e sempre que eu fizesse não dava certo pois não encontrava as farinhas adequadas para a minha dieta. Daí decidi substituir os ingredientes, comecei a fazer a mistura de algumas farinhas com alguns ingredientes e os bolos e outras comidas, saindo pouco a pouco”, avançou.

Portanto, na sua nova dieta, Helga passou a substituir o leite normal pelo leite de coco, de soja e de amêndoas que são totalmente vegetais; a farinha de trigo pela farinha de polvilho doce, de arroz, pelo amido de milho e pelo polvilho azedo, e passou a usar outras farinhas que temos a nível nacional como é o caso da farinha de caju, soja, mapira e outras farinhas vegetais.

“Posso comer tudo o que é farinha vegetal menos o trigo e o leite de origem animal. Não posso ir a nenhum restaurante pois não sei como é feita a confecção dos alimentos, porque o glúten não se encontra apenas nos bolos e pães, mas também em alguns recheios. Mesmo porque existe também a contaminação cruzada, que acontece quando se ingere alimentos servidos em utensílios que antes continham algo que possui o glúten, e tudo isso conta”, explica a Jovem.

 

Todo o cuidado é pouco

“A minha vida é andar com marmitas. Onde quer que eu vá, tenho que levar a minha comida, tendo em conta que com esta doença deve-se comer, de 3 em 3 horas, pois o estômago nunca deve estar vazio. Se estou fora de casa e surge a fome, não terei como comprar algo para me alimentar pois não se acha em qualquer lugar, comida para a minha dieta”.

Porém, a jovem já aprendeu a lidar com a sua condição, investigou mais sobre a sua dieta alimentar e hoje confecciona os próprios alimentos e vende-os para quem precisa. A ideia surgiu quando a mãe de um amigo descobriu que também tinha a doença celíaca e sugeriram que ela vendesse os alimentos dietéticos.

“Antes eu só confeccionava alimentos para mim, e alguns pediam para provar a minha comida. Entretanto, gostaram e deram-me a ideia de vender, mas eu resistia. Mas quando apareceu a mãe do meu amigo, desesperada, pedindo que eu vendesse os alimentos a qualquer preço, daí pensei, será que devo vender? Pois nunca tinha pensado no assunto, mas a partir daí comecei a vender. Portanto, da luta pela vida surgiu este negócio. Transformei uma adversidade em fonte de rendimento”.

Segundo conta a Helga Patrícia, mais tarde foram aparecendo mais pessoas que pretendiam comprar os seus alimentos, a maior parte das quais por uma questão de estilo de vida, porque não querem engordar, e não necessariamente por causa de alguma doença. “As farinhas são livres de gordura, ricas em fibra, sendo apropriadas para quem não quer engordar. Aos poucos foram aparecendo mais clientes, um recomendando ao outro, uma publicidade que funcionou boca-a-boca”.

 

Desafios para o futuro

A jovem reconhece que os preços dos produtos sem glúten são extremamente elevados, sendo motivo de reclamação por parte dos clientes, entretanto argumenta: “a matéria-prima ou a farinha que uso para fazer os alimentos são raros no nosso mercado e os que existem são muito caros porque são importados do exterior como é o caso de Portugal ou da África do Sul. São poucas as lojas na cidade de Maputo que vendem esses produtos”.

Com o crescimento das vendas dos alimentos sem glúten, a jovem perspectiva para um futuro próximo abrir um pequeno supermercado de venda de produtos sem glúten e um salão de chá no qual possa receber clientes, não só os que fazem a dieta por questões de saúde, mas também para os que a fazem por estilo de vida.

“Mas a minha prioridade será naturalmente para os que fazem esta dieta por questões de saúde. Nem todos procuram estes alimentos porque têm a doença celíaca, outros fazem porque são alérgicos ao glúten, outros porque são alérgicos à lactose”, revelou Helga Patrícia, e acrescentou: “Pretendo abrir um espaço, um salão de chá que todos possam conhecer, e, talvez mais além, abra um restaurante e uma padaria”.

Outro sonho da jovem empreendedora é criar uma associação para os doentes celíacos tendo em conta que: “esta doença é rara, muitos podem até tê-la sem saber. Outros podem saber que têm a doença e não saber para onde se dirigir para obter apoio. Então, podemos nos apoiar uns aos outros.

 

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